2011-04-21

O dia em que Mano Changes me representou melhor do que Raul Pont

É duro admitir, mas no caso da Lei Policarpo Quaresma, de autoria de Raul Carrion Jr. (talvez possamos nomeá-lo, no espírito da lei, e brincando um pouco, Raul Carrião Jr., ou Raul Carniça [é a tradução de "carrion" -- outras traduções possíveis são "asqueroso", "vil", "repugnante"] Jr., isso se não for o caso de traduzir "júnior" do português que falamos para algo mais luso, como farei aí embaixo, ainda brincando com a proposta), o pobre do deputado Mano Changes me representou muito melhor do que Raul Pont, apesar desse último ter levado meu voto.

(Aliás, se valer o espírito da lei, o deputado Mano Changes vai virar o deputado Irmão Mudanças!)

Isso porque, de acordo com a planilha de votação do dia 19 do projeto de lei 156/2009, de autoria de Raul Policarpo Quaresma Carrião Filho-de-um-Pai-do-Mesmo-Nome (é minha lusificação de "júnior"), o PT, o PDT, o PSB decidiram passar o vexame de aprovar um projeto ingênuo, inócuo e inoportuno do muitas vezes engraçado PCdoB. Já Mano Changes e a bancada do PP trataram o projeto adequadamente, ou seja como uma besteira. Aliás, na matéria do Sul21 sobre o assunto, só os deputados do PP falam algo sensato:
Posição bem distinta da defendida por Frederico Antunes (PP). Para o progressista, a maior parte das expressões atingidas pela proposta de Carrion já estão incluídas até mesmo nos dicionários. “Estamos discutindo uma questão de importância menor. Faríamos melhor se nem tentássemos legislar a respeito dela”, criticou Antunes. “Estamos pedindo que sejam traduzidos termos que usamos diariamente, que somos capazes de ler e compreender imediatamente o significado”. Jorge Pozzobom (PP) reforçou essa posição, dizendo que, em tempos de globalização, uma proposta dessas não faz sentido e que por isso o seu partido votaria contra o projeto.
Eis a ementa da lei:
Institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, sempre que houver em nosso idioma palavra ou expressão equivalente, no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul e dá outras providências.
O insano projeto de lei supõe, falsamente, que as pessoas não falam usualmente na sua língua nativa, a qual é o português, e o qual cada falante enriquece a cada novo ato de fala.

(Como diz belamente o Merleau-Ponty, há a língua nova que surge, a língua falante, e a língua repetida, isto é a língua (já) falada. Há a língua falante que vai surgindo dos primeiros contatos com as novidades, que é como se fosse uma lufada de ar fresco na língua, e há essa língua falada, a qual simplesmente rumina o que antes foi experimentado. A expressão nova da fala falante é fundamental, pois sem ela não haveria a fala falada, aquela que é mera repetição no presente do que foi um contato com a novidade no passado. Falar é inventar, pois ser gente é ser falante, e ser falante é ser, antes de tudo, criativo. Se o fruto de tudo isso ofende os ouvidos dos lusófilos, pior para eles. Aceitar o humano é aplaudir a criatividade.)

A tolíssima lei exige que as pessoas "traduzam" (sic) o que falam e escrevem (mas suas línguas!) para uma língua que (sic) não seja estrangeira (ou seja, ou falantes nativos não falam a língua nativa, o que é bizarro).

Isto é, de acordo com a lei aprovada pelo parlamento gaúcho, com total apoio da bancada do PT, é ilegal se expressar na língua com a qual você pensa, pois esta não é sua língua nativa (sic!), mas sim (sic) uma língua estrangeira, a qual estranhamente você aprendeu convivendo com os falantes da língua nativa, não com um estrangeiro.

Daí, o que você deve fazer?

Bem, creio que você vai ter que andar com um português de Portugal a tira-colo, para que ele transforme o que você diz na sua língua nativa que é estrangeira (!) para a língua nossa (sic), a qual é falada por um português, logo um... estrangeiro.

Eu confesso que esperava mais do PT, e mais do Raul Pont, que é uma pessoa instruída.

A ingenuidade da lei vem do fato de que talvez até o tupi seja "estrangeiro", no sentido de ter palavras de línguas que o formaram.

O inócuo da lei vem do Houaiss registrando tudo o que de fato usamos, tornando qualquer "estrangeirismo" que fere aos ouvidos dos lusófilos (já voltarei a isso) em palavra do português -- e fazendo isso corretamente!

O inoportuno da lei vem da tentativa de moldar de uma maneira tolíssima o pensamento e a expressão.

Os defensores da lei simplesmente não sabem o que é uma língua viva, pois línguas são como rios: o que era Solimões vira Amazonas, o que era Amazonas vira Oceano Atlântico, o que era Oceano vira chuva...

Ou seja, "estrangeirismo" hoje, a língua "pura" (hahaha) amanhã; latim ontem, português hoje.

O Zé Porcher deu um exemplo simples: houve um tempo em que a palavra "alface" não era uma palavra nativa, mas hoje é.

O melhor texto sobre o assunto ainda é "A idioletice de Aldo Rebelo", publicado em 2007 pelo Idelber Avelar, quando o sr. Aldo Rebelo veio com proposta semelhante para a federação (e tentou tirar uns trinta mil reais do bolso do artista Millôr Fernandes por chamar a proposta de "idioletice").

Eu espero que o governador Tarso Genro leia esse texto, caso tenha alguma dúvida antes de vetar a lei. Reproduzo o trecho central:
Para resumir o que colegas mais pacientes que eu diriam de outra forma, o projeto de Aldo Rebelo contra os estrangeirismos é de imbecilidade: 
a) sociolinguística, porque ignora que sobre a língua viva não se legisla. 
b) filológica, porque não sabe que a evolução da língua inclui a incorporação de vocábulos estrangeiros. Ou será que a digníssima esposa do deputado usa porta-seios, ao invés de sutiãs? Será que ele ignora que este último foi, um dia, um vocábulo estrangeiro? 
c) pragmática, porque ignora que cada falante, individualmente, tenderá a ter a capacidade de selecionar os estrangeirismos adequados para cada contexto e, no caso de não fazê-lo, a própria interação subseguinte com os outros falantes atuará, corrigindo-o. 
d) psicolínguística, porque quer cercear legislativamente o leque de escolhas lexicais do falante da língua. 
O governador Tarso Genro é uma pessoa instruída, e pelo jeito vai vetar o projeto. A saída elegante pra não ofender a turma que votou a favor é consultar os especialistas.

Ainda bem!

Nenhum especialista de verdade na língua aceitaria um projeto tolo como este, assim como nenhum físico aceitaria um projeto de lei que revogasse a lei da gravidade, porque a mesma é uma das causas das dores nas costas.

Volto ao ponto que toquei acima, a lusofilia.

É claro que nem o deputado Raul Carrião nem o deputado Aldo Rebelo sabem o que é uma língua, pois do contrário não proporiam seus estranhos projetos antigravitacionais, tentando legislar sobre a língua viva, o que é mais ou menso o mesmo, no nível da confusão, que tentar modificar a configuração do Orkut com uma chave de fenda.

Uma matéria da Zero hora dá a entender que ele usa "centro comercial" pra "xopicenti", e "telefone inteligente" pra "smart phone".

Até aí, tudo bem, pois cada um fala como quer.

O estranho é ele achar que fala de maneira (sic) menos estrangeira do que os seus vizinhos, o que me faz rir de cuspir a farofa no monitor.

Como o Idelber postou no Facebook, o Houaiss de 2008 já traz, como termos do português (e do que mais seria??!), "shopping center" e "centro comercial". E acontece que não são sinônimos!

Se prestassem atenção à língua e ao dicionário, ao invés de prestar atenção a fantasias ingênuas, Rebelo e Carrião saberiam disso.

"Shopping center" é uma expressão do português que designa um centro de compras que tem uma arquitetura específica. Logo, não é sinônimo de "centro comercial", e o Carrião simplesmente tá se expressando mais ou menos em português ao usar "centro comercial" em um caso onde seria mais preciso usar "shopping center".

Mas talvez o espírito da sua lei seja outro, e bem pior, dado que a atenção e o respeito pelos estudiosos da língua é zero.

Talvez o espírito seja de ilegalização do trabalho do dicionarista que descreve a língua viva, sem colocá-la em um espartilho lusófilo. Se assim for, o que seria um cenário lamentável, ao invés de elogio ao dicionarista que dá conta da mutação da língua viva, haveria punição a ele por não manter uma suposta pureza lusófila.

Daí, se me perdoam a expressão, estaríamos f_d_d_s, como sempre estamos nos casos nos quais as leis prescrevem algo que simplesmente vai contra aquilo que as melhores teorias descrevem como sendo a realidade, a qual não pode ser abolida por ninguém, muito menos por quem vive no mundo da fantasia.

Nesse caso estaríamos mal porque uma preferência estética, a lusofilia, estaria impedindo a adequada descrição da realidade.

Nada contra as preferências estéticas, mas impô-las aos outros como verdades é o caminho pra intolerância, pro preconceito, pra discriminação e pra violência.

Para comparar, há boas razões para crer que boa parte da oposição à união civil homoafetiva é estética, dado que as pessoas que a rejeitam a consideram repugnante, e daí, via racionalização, propõe sua proibição.

Na realidade há gente que ama gente do mesmo sexo, há gente que ama gente de outro sexo, e há outras variedades. Muitas outras.

Nenhuma preferência ou repugnância estética pode impedir isso.

Do mesmo modo, há gente que fala de maneira lusófila, e há gente que fala de outras maneiras.

Nenhuma preferência ou repugnância estética deve impedir isso.

Esperemos que tal tentativa de imposição estética não esteja ao fundo dessa lei. Mas façamos isso exigindo que nossos legisladores deixem claro o que propõem, e façam isso respeitando o melhor conhecimento disponível sobre a natureza e o funcionamento da linguagem, não meras fantasias ou preferências estéticas.

2011-04-12

Bolsonaro não é nosso guia


O Guga Türck, do blog Alma da Geral, encontrou esta justaposição de imagens e legendas impressionante, no site ClicRBS, no dia 2011-04-05.

O que vemos?

Infelizmente, vemos homofobia.

A justaposição da imagem do casal aparentemente homo sob a rúbrica policial com a imagem do casal hétero sob a rúbrica do namoro é impressionante. Um casal, o que parece homo, e se beija, tem as palavras "excesso" e "policial" na legenda.

Beijar é um excesso?

Outro casal, claramente hétero, só se toca de maneira pudica. A legenda é mais aprovadora, fala de espera e "busca" do "amor da sua vida". Sem polícia, sem excesso.

Quem acharia que um beijo é um excesso policial? É claro, beijos são excessos, transbordes, hybris solta, mas de tesão, a mais saudável e mais necessária das energias. Mas beijar não é crime, graças a deus!

Daí vem a ação policial, no dia 2011-04-10, feita sob medida para agradar o moralista. Ele vai sorrir no dia seguinte, quando seu jornal predileto for escorrido sob a soleira da sua porta, trazendo a foto dos amantes tratados como criminosos.

Nessa data, a partir das 19h30, a polícia começou a revistar casais que se beijam, coisa que é suficiente para transformar a cidade de Porto Alegre no mico dos micos fundamentalistas, visto que, de capital do cosmopolita Fórum Social Mundial, se transformou em paróquia de um interior profundo, onde, ao estilo do Irã, a função da polícia é zelar pelos bons costumes, de acordo com o padrão de quem chama a polícia porque um cidadão tá beijando na rua.

Quer dizer que há tanta polícia disponível em Porto Alegre que alguns soldados podem ser deslocados para fazer um trabalho que é lamentável mesmo nas notícias sobre o ultraconservador Irã?

Olha o que o pessoal do grupo Somos conta:
«É comum usarmos a expressão “pra inglês ver” quando nos referimos a uma situação ou atitude encenada, que cumpre algumas regras sociais mais ou menos ritualizadas e que concretamente não tem efeito. “Pra inglês ver” são aquelas ações ou falas que procuram mostrar que alguém faz o que é mandado/a fazer, mesmo que sua prática não resulte em grandes feitos. 
Foi isso o que aconteceu ontem na rua Lima e Silva, por volta das 19h30min. Três caminhonetes da Brigada Militar estacionaram em frente ao Centro Comercial Nova Olaria, e mais de 10 policiais da Brigada mandaram que as pessoas que se aglomeravam ali em frente fossem para a “parede”: todos e todas foram revistados/as – as meninas por uma policial feminina – e as mochilas foram abertas e inspecionadas, inclusive os maços de cigarro, pois talvez ali se esconderiam as buchas de cocaína que os jovens supostamente cheiram nos parapeitos das janelas dos prédios.»
Três veículos táticos foram deslocados para a inócua operação iraniano-policial de revistar gente que se beija.

Três!

Quantos veículos desses há, em pleno funcionamento, em Porto Alegre? Digamos que haja 60. Deve ser menos. Se for 60, 5% dos veículos táticos estavam cuidando de reprimir o beijo. Em Porto Alegre! Dá pena dos soldados da PM, pois têm que fazer a encenação toda só porque o comando quer agradar o jornalzinho.

É claro, isto faz felizes o povo que chama a puliça pra lidar com beijo, pois eles veem a foto do casal na parede, tomando atraque. Agora eles acham que os bandalhos aprenderam a lição, e serão como eles. O jornal também fica feliz, pois o escândalo gera lucro, apesar de custar a vida, a saúde ou a propriedade de quem precisa de polícia, mas ficou sem porque os soldados tavam cuidando de beijo, não de crime.

Não devemos nos guiar pelo que faria um Bolsonaro agradecer. É claro que deve haver polícia ao redor das pessoas que se beijam, mas para protegê-las de malucos homofóbicos e de eunucos psicopatas que nunca foram tocados por ninguém, mas querem morrer pra serem tocados após mortos por homens bem limpinhos. Se há um problema em tudo isso, é o problema da escandalização moralista, a qual sempre é um péssimo guia para a ação e o interesse público.

PS - Um jornal responsável não chantagearia a polícia para fazer operações espetaculares, mas caras e inócuas, só porque isso dá lucro. Um jornal responsável, tal como um cidadão responsável, não transformaria em crime o que não é crime, pois o custo disso é vidas perdidas aonde não há mas é preciso haver, de fato, polícia. Todos sabemos que há carência de polícia para lidar com o crime de fato. Se, sabendo disso, forçamos a polícia a deixar o crime de lado, pra cuidar de nada, estamos simplesmente facilitando a vida de quem mata, agride, rouba, estupra. Simples assim.

2011-04-02

Esterilidade e repetição na mídia de esquerda

Faz um bom tempo que parei de ler jornais e revistas de direita, pois eles escolheram o caminho da mentira na cara dura, e eu preciso de notícia de qualidade, além de opiniões que me ajudem a ver detalhes e aspectos importantes.

Daí parti para mídia de esquerda, e ganhei principalmente na apresentação de aspectos fundamentais para quem se importa com a justiça, a qual é o cimento da sociabilidade.

Até agora.

Pra falar a verdade, nos últimos meses alguns dos principais blogs e sites em língua portuguesa tem se mostrado estéreis e repetitivos.

A esterilidade vem do fato de que, muitas vezes, a resposta pré-fabricada é dada a todo e qualquer novo problema que apareça. Há dois moldes de respostas pré-fabricadas centrais:

  • O molde acusatório internacional, do tipo tire-os-EUA-pra-Judas
  • O molde apologético nacional, do tipo fulano-critica-o-governo-federal-mas-ele....
O molde acusatório internacional é fácil, basta preencher as lacunas aí embaixo:
No mundo ocorre agora a crise __________. As vítimas são __________. O culpado é EUA/Europa/Israel/corporações. O culpado do problema é EUA/Europa/Israel/corporações por ter feito __________ (ou por não ter feito __________).
Você mesmo pode fazer sua própria matéria de opinião, seguindo o molde acima. Não é preciso ir no site pra encontrá-la. 

O molde apologético nacional é assim:
O PSDB/mídia ataca o governo Lula/Dilma por __________. No entanto, eles o fazem porque têm interesse em __________. Esse interesse é suficiente para deixar claro que o PSDB/mídia é pérfido, muito ruim, e que o governo federal está certo. 
De novo, você pode criar seu artigo em casa, seguindo esse molde, no qual é notável que o assunto do ataque simplesmente some do mapa rapidinho, coisa que torna o artigo inútil para quem quer entendê-lo melhor. 

É claro que há várias exceções a tais moldes, mas é sacal abrir o site que costumava te informar e te fazer entender e encontrar tal tipo de produto pré-fabricado lá, de novo. 

A meu ver, os artigos que seguem tais modelos são estéreis. No caso acusatório internacional, não se preocupam em investigar detalhes, ou entender diferenças, pois basta apontar o culpado de sempre, e tudo está resolvido, ao menos no que diz respeito à cumplicidade entre autor acusador e leitor que curte malhar um Judas. Não é preciso pesquisa alguma, nem levantar do conforto da poltrona. Dá pra fazer um gerador automático de artigos assim, a cada nova crise que surge. 

A mesma esterilidade se dá no caso do modelo apologético nacional, pois o foco é a defesa do governo federal junto da acusação aos culpados de sempre, sendo o assunto em debate relegado ao segundo plano. 

Tudo isso é enjoativamente repetitivo, e seria ótimo se os editores da mídia de esquerda tentassem evitar isso, por mais que as vedetes das receitas de bolo rascunhadas acima deem ibope. 

2011-04-01

Um soldado israelense expressa sua frustração

«Em Hebron senti uma frustração profunda. Senti que tô cometendo uma injustiça, e ninguém se importa. Ninguém se importa mesmo, e ninguem tá tentando fazer alguma coisa pra me tirar disso, ou nos tirar disso.»
-- Depoimento de um soldado israelense em Witness View

Disclaimer

Nota bem que eu publico aqui opiniões de diversas pessoas, o que não quer dizer que eu concorde com tudo. A responsabilidade pelo que reproduzo aqui é dos autores citados. Essa responsabilidade se estende aos autores dos comentários feitos às postagens deste blog.