2009-07-04

Você disse 'religião'? Cala a boca e dança!

O Guardian deste sábado traz uma resenha do livro The Case of God, de Karen Armstrong, pelo filósofo Simon Blackburn. Eis a glosa da resenha.

Religiões usam rituais, mistério, dança e meditação para nos ajudar a lidar com este mundo, o qual é causa de sofrimento para muitos. Ao fazer isso, as religiões estabelecem práticas valiosas, e nosso envolvimento nas mesmas é tão rico quanto nosso envolvimento com a arte. Em ambos os casos, arte e religião, as experiências de quem se aplica às respectivas práticas trazem serenidade e elevação.

Na visão de Karen Armstrong, a religião deve ser isso: uma prática que nos eleva. E é isso o que encontramos nos rituais, festas, danças e meditações típicas das maiores religiões.

No entanto, há um elemento indevido que tem estado misturado a tudo isso desde o século 17: a tentativa de transformar a prática religiosa em algo intelectual, em algo feito de palavras, ao invés de feito com o corpo.

Desde a ascenção da ciência no século 17, tem se tentado, indevidamente, transformar a religião-prática em religião-crença, e em religião-dogma. Essa é, na visão de Armstrong, uma perversão da religião. De acordo com a visão dela, são esses "religiosos" perversos, os quais falam e exigem concordância total ao invés de calarem a boca e dançarem, que são ridicularizados pelos ateus. Já os religiosos mesmo, os da prática, da elevação pela dança e pelo ritual, esses seriam imunes aos ataques de Dawkins, Dennett e outros, pois não querem nos convencer de nada, visto que se limitam a fruir de uma experiência elevada e significativa, tal como se tem com a arte.

Enfim, os que praticam a religião o fazem em silêncio argumentativo, e por praticarem ao invés de discutirem e exigirem total aceitação, nada fazem de ridículo aos olhos de quem argumenta. Suas práticas lhes dão serenidade, e são valiosas por si sós. O que eles alcançam não é uma crença ou um conjunto de proposições a serem defendidas a qualquer custo, mas sim uma vida com experiências valiosas e significativas.

Assim, o que um religioso deve dizer sobre a religião? Ora, nada !! Religião é prática, não diálogo racional. Praticar religião é algo que se faz em silêncio.

O livro da Armstrong parece ótimo, e fiquei com vontade de lê-lo. Ou não! Talvez o melhor fosse partir direto para alguma prática, de preferência bem pagã.

2009-06-27

Burca, Sarko e o melhor da blogosfera

Por incrível que pareça, foi Sarkozy quem deu a deixa para o surgimento de duas postagens simplesmente imperdíveis na blogosfera lusófona:
As postagens são ótimas, e os debates nos comentários são imperdíveis. Eis alguns trechos. Primeiro, da Cynthia. Eis um trecho contínuo do seu texto:
Nessa perspectiva altamente controladora do corpo e da imagem das mulheres, usar uma burca é uma forma de deixar claro que a mulher tem dono. Ela não tem identidade visual, nem aparência definida. É apenas alguém inferior a um homem, e que lhe deve obediência e respeito. Sua incursão no espaço público é tão exótica que precisa ser estigmatizada, para lembrar àquela mulher que sua cultura diz que seu lugar na sociedade é apenas no espaço privado, obedecendo a um homem, além de lembrar aos outros homens que ela tem dono, estando interditada para eles.

É por isso que dou toda razão a Nicolas Sarkozy quando ele afirma que a burca “reduz a mulher à servidão e ameaça a sua dignidade“. Em jogos de poder, roupas não são apenas um pano cobrindo e protegendo o corpo, mas um sinal claro de status social.

Ah, irão falar em liberdade de escolha. Que liberdade de escolha tem uma pessoa que, desde a infância, aprende que deve se portar e vestir de determinadas formas para reforçar sua feminilidade/condição social? E todos no espaço público reforçam essa mensagem afirmando que é assim que tem de ser, por respeito a uma questão cultural ou religiosa? Como essa pessoa será livre pra escolher se a pressão que ela sofre é para se submeter a essas regras, ou, como alternativa, ser acusada de desonrar a família e até morrer por isso?

Não cabe a um Estado Democrático permitir que esses micropoderes se perpetuem, reforçando desigualdades entre homens e mulheres. E não cabe desviar a questão para a liberdade religiosa, pois aqui a religião atua como uma desculpa para legitimar um sistema de dominação que se pretende ser superior ao Estado. Um Estado laico realmente digno desse nome não pode permitir que, sob o pretexto de liberdade religiosa, seja mantido todo um sistema de opressão a mulheres, transformando-as em sub-cidadãs que precisam, a cada passo, se lembrar e propagandear que são propriedade masculina e que não têm autonomia sequer para se vestir da forma que desejarem.
Agora, do Túlio. Os trechos foram pinçados da postagem e dos comentários:
Não existe direito à liberdade de ser oprimido. Da mesma forma que a mulher não tem a “liberdade religiosa” de ter seu clitóris mutilado, ela não tem o “direito de optar” por usar a burca, pois neste caso está claro que não é uma opção, mas uma opressão.

O direito à liberdade religiosa não é uma carta-branca dada ao clero para afrontar outros direitos fundamentais da pessoa humana. Pena de lapidação para mulheres adúlteras, mutilação genital feminina e obrigatoriedade do uso da burca não são um exercício razoável do direito à liberdade religiosa, mas uma violação gritante ao direito fundamental à igualdade entre os gêneros que está consagrado nos estados democráticos contemporâneos.

A burca não é um mero símbolo de adoração religiosa; ela é um instrumento de opressão dos homens sobre as mulheres. O crucifixo e a quipá não oprimem as mulheres, então seu uso não viola o princípio da igualdade de gênero. Não há, pois, qualquer necessidade de ponderção de princípios e a liberdade religiosa prevalece.

Não é pelo fato de o oprimido concordar com o discurso legitimante de seu opressor que ele deixa de ser oprimido.

Ora, em um estado de direito laico, parece-me inadmissível que o direito à igualdade de gêneros seja violado a pretexto de se tutelar o direito à liberdade religiosa. Fosse assim, os franceses deveriam permitir também restaurantes para canibais, em respeito à diversidade antropológica de possíveis imigrantes.

O limite da liberdade religiosa está, não só na integridade física e no direito à vida, como você colocou, mas em qualquer outra violação a direito fundamental da pessoa humana, como a igualdade. O direito não pode permitir que, a pretexto da liberdade religiosa se dê tratamento desfavorável a negros, homossexuais ou mulheres.

Todos nós sofremos pressões sociais quanto às nossas vestimentas. Não fosse esta pressão, talvez eu nunca tivesse vestido um terno. Só que esta pressão social não me obriga a vestir uma roupa que me coloca em posição simbólica de clara inferioridade em relação a um outro grupo social.

Dilma e Lula no FISL 10


Ótimas falas em um ótimo evento.

2009-06-24

Prostituição infantil, STF STJ e jornais

Quem tem relação sexual com criança pode ser condenado por estupro, pelo artigo 224 do Código Penal, e gigolôs de crianças podem ser presos e multados, segundo o artigo 244-A do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Ou seja, são duas infrações diferentes.

Bem, o STF STJ decidiu que cliente de prostituto infantil não é gigolô, o que é sensato.

Mas, o que os jornalistas com diploma noticiam?

Que pagar por sexo com menores não é crime! Essa é a manchete d'O Globo e da Zero Hora, o que apenas mostra que esses jornais não sabem do que estão falando.

A história completa e detalhada, incluindo os links que eu não inclui só para forçá-los a ir até lá, está em uma postagem do blog do Túlio Vianna.

2009-06-12

O pessoal da Folha continua abusando da linguagem?

Mais um momento do jogo em curso Jornalões x Lógica, e mais um lance inválido do time dos jornalões. A Folha perguntou:
Você aprova a decisão da Petrobras de vazar em blog as perguntas feitas por jornalistas para reportagens que ainda não foram publicadas?
Caso quisesse participar, você teria que responder 'Sim' ou 'Não'. No entanto, trata-se de uma pergunta complexa, isto é, uma pergunta que parece simples, mas é composta por outras perguntas. Tal tipo de pergunta não é respondível com um simples 'Sim' ou 'Não', e forçar o interlocutor a responder assim é cometer a falácia da pergunta complexa. Nesse tipo de falácia:
Dois tópicos sem relação, ou de relação duvidosa, são conjugados e tratados como uma única proposição. Pretende-se que o auditório aceite ou rejeite ambas quando, de facto, uma pode ser aceitável e a outra não. (Crítica)
Por exemplo (o exemplo é surrado, comum em manuais de lógica), você pergunta a um cara casado, exigindo um 'Sim' ou 'Não':
Você continua espancando sua mulher?
Se o interlocutor responder 'Sim', então ele bate na mulher, e batia no passado. Mas, se responder não, então não bate na mulher no presente, mas batia no passado.

Para sair dessa sinuca, você deve separar as perguntas que são indevidamente agrupadas. Assim, teríamos duas perguntas, ao invés de uma:
Você batia na sua mulher?
Você bate na sua mulher?
O mesmo vale para a pergunta proposta pela Folha:
A Petrobrás vaza em blog as perguntas?
Você aprova o procedimento da Petrobrás no seu blog?
Aqui, na primeira pergunta está em jogo se há vazamento, ou não. Como a Folha sabe muito bem, é abusivo falar em vazamento nesse caso, pois, como a Petrobrás esclarece:
Com efeito, a relação entre a Petrobras e os veículos de comunicação que a interpelam é essencialmente pública. Neste contexto não há espaço para informação sigilosa, como o verbo 'vazar' utilizado no título pressupõe. Tanto as respostas da Petrobras são públicas quanto as perguntas dos repórteres também o são, ou deveriam ser.
Ou seja, não há vazamento. A segunda questão, esta sim, é digna de uma enquete.

Quanto à pergunta do título da postagem, a qual obviamente é uma pergunta complexa, o pessoal dos jornalões não terá dificuldade alguma em destrinchar nas perguntas mais simples, e responder adequadamente, após prestar alguma atenção à lógica.

2009-06-10

Não me mande flores

Foto, do professor Hariovaldo (USP), de momentos antes da polícia agredir professores e estudantes na USP, ontem.

Vários professores e estudantes foram agredidos ontem, no campus da USP, inclusive meu amigo Jorge Machado, professor de sociologia por lá.

Leia sobre o evento no Biscoito Fino, postagens Relato do Prof. Pablo Ortellado e Serra Não Pode Ser Presidente. Em suma, o que temos é a consequência da incompetência, omissão e dubiedade do governador de São Paulo, José Serra, e da reitora da USP, Sueli Vilela, a qual foi alertada por vários professores sobre o que acabou ocorrendo.

Temos também, é claro, os malas do movimento estudantil, os quais têm várias idéias simplesmente ruins. No entanto, o fato de alguém ser chato e estar equivocado não redunda em merecer e receber porrada.

Se fosse assim, nosso amigo José Serra estaria cheio de hematomas merecidos.

2009-06-09

O blog da Petrobrás e o argumento da cortesia

Há jornalista dizendo que a Petrobrás quebra o pacto de confiança entre ela mesma e a imprensa com seu blog. 

No entanto, o que está em jogo não é a confiança, mas sim uma mera cortesia -- do mesmo tipo que se dá quando alguém beneficia alguém em particular quando deveria estar beneficiando a todos, ou quando um guarda de trânsito nos vê infrigindo o Código de Trânsito, mas não multa. E, no caso do blog da Petrobrás, eu acho que o argumento da cortesia entre assessoria de imprensa e imprensa é ruim, pois:

1 - A informação é pública (fato)

2 - Por muito tempo, se fazia a cortesia de dar a informação que é de todos apenas para a imprensa (fato)

3 - Agora não se faz mais isso, no caso do blog da Petrobrás (fato recentíssimo)

4 - E daí? Bem, e daí que aos jornalistas, resta agradecer pela cortesia passada, mas não cabe queixa sobre a situação atual. 

Simples assim.

(A partir de um comentário no Biscoito Fino.) 

2009-06-08

O blog da Petrobrás, o público e o óbvio

Comentei lá no Biscoito Fino, postagem sobre o blog da Petrobrás:

Meus queridos,

Senti falta do óbvio, nesta longa discussão. Eis o óbvio:
A INFORMAÇÃO É PÚBLICA
Aliás, isso o pessoal da Petrobrás sabe disso muito bem, e é o fundamento do que fazem no blog. Eles escrevem:
Com efeito, a relação entre a Petrobras e os veículos de comunicação que a interpelam é essencialmente pública. Neste contexto não há espaço para informação sigilosa, como o verbo 'vazar' utilizado no título pressupõe. Tanto as respostas da Petrobras são públicas quanto as perguntas dos repórteres também o são, ou deveriam ser.
O que importa é isso. Se algumas mídias, como o mimeógrafo e outras, precisam de uma volta inteira da Terra para publicar o que é público e pode ser imediatamente publicado por vias mais diretas e baratas, o que diabos temos a ver com isso?

Claro, isso pode perturbar a relação entre quem dá ao público o que lhe pertence e certos intermediários. Isso ocorre em qualquer negócio que tinha um atravessador, e o mesmo torna-se dispensável. Mas o público fica satisfeito ao receber o quanto antes o que lhe pertence, de modo que a coisa vale a pena.

É claro, também, que o público merece mais do que a informação que lhe pertence por direito. Ele merece análise inteligente, e a mesma aparece com mais destaque quando o público dispõe do máximo de informações, pois daí o público pode avaliar com mais cuidado e acerto o que é inteligente, e o que não é.

Enfim, o blog da Petrobrás é um marco. Vai incomodar atravessadores de informações, mas aqueles que usam os miolos surfarão nessa onda muito bem. Como boa parte dos melhores portadores de miolos trabalham em jornais e revistas, creio que esses se sairão bem, assim que puderem pensar em paz e nutrir o público com idéias e conhecimento.

O blog da Petrobrás explicado para as crianças

Uma repórter novata escreveu:
Vazando as perguntas antes da publicação

A Petrobras decidiu tornar públicos em um blog os e-mails enviados por jornalistas que procuram a assessoria de comunicação da empresa, no Rio, para obter informações e esclarecimentos para reportagens que ainda estão em andamento.(leia aqui a matéria da FOL)

E houve jornalista que defendeu a manobra, como o Nassif, em seu blog.

Eu já penso como Sergio Leo (aqui): se a empresa não gostar da edição, julgar que houve parcialidade ou deturpação, que divulgue a íntegra das perguntas e respostas, mas DEPOIS da matéria publicada.

Não consigo ver nenhum argumento razoável pra divulgar antes. E você, o que acha?
Eu comentei por lá (os acréscimos entre parênteses eu escrevi depois, e só aparecem aqui):

Como assim "vazar"? (Um jornalista, mesmo iniciante, deveria usar as palavras com cuidado, pois são suas ferramentas de trabalho. E a Petrobrás esclarece isso muito bem: "Com efeito, a relação entre a Petrobras e os veículos de comunicação que a interpelam é essencialmente pública. Neste contexto não há espaço para informação sigilosa, como o verbo “vazar” utilizado no título pressupõe. Tanto as respostas da Petrobras são públicas quanto as perguntas dos repórteres também o são, ou deveriam ser.") Viveríamos em um país muito estranho se pudéssemos ser entrevistados, mas não pudéssemos revelar as perguntas que nos foram feitas. Acho importante esclarecer isso aos mais jovens. 

(E que tal dar na nota o argumento do Nassif, já que deu o argumento do Sergio Leo? Essa simetria enriqueceria sua postagem.)

E a Petrobras não divulga os emails, ela apenas divulga as perguntas feitas. São coisas distintas. É importante esclarecer isso para os mais jovens. 

E o interesse da Petrobrás é claríssimo: transparência. O que é do interesse de todos nós. Isso também precisa ser dito aos mais jovens. 

(Para mais esclarecimentos, vá ao Biscoito Fino, postagem de hoje.)

2009-06-06

Blog da Petrobrás é um marco

O blog da Petrobrás é um marco na história da blogosfera brasileira, e mais um passo perau abaixo da mídia, cada vez mais chinfrin, cada vez mais apagadinha. 
  • Eis o endereço: http://petrobrasfatosedados.wordpress.com/
  • Se quiser saber o que a Petrobrás tem a dizer, vá a esse blog
  • Se quiser saber o que os jornais perguntam à Petrobrás, vá ao blog, pois os jornais omitem (editam) essa informação
  • Se quiser saber o que é mera tentativa de lucrar politicamente ou financeiramente com a empresa que concretiza uma meta idealizada por Monteiro Lobato (o que lhe custou prisão), vá ao blog
  • Daí, se quiser ver com clareza a mera tentativa de manipular a opinião pública, vá aos jornalões e às grandes redes de TV; mas prepare-se para o nojo
  • Aliás, os jornalões não estão gostando nem um pouco dessa história de blog da Petrobrás
  • Luis Nassif nota que eles foram pegos de surpresa, e se queixam do excesso de transparência
  • Luis Carlos Azenha nota que com tanta transparência fica difícil manipular a opinião pública
Enfim, o blog da Petrobrás é um marco. Ganhamos em transparência, ganhamos em qualidade da informação, e ganhamos na construção de meios de impedir que patifes levem adiante suas patifarias. E também ganhamos em simplicidade, pois a Petrobrás simplesmente utiliza uma plataforma WordPress comum, tal como fazem muitos de nós blogueiros.