2011-03-31

O corpo é uma festa


La iglesia dice: El cuerpo es una culpa.
La ciencia dice: El cuerpo es una máquina.
La publicidad dice: El cuerpo es un negocio.
El cuerpo dice: Yo soy una fiesta.

+/-lunet ← foto The body, de Fallon Zophy

2011-03-29

Seguir pessoas ou seguir ideias?

É curioso ver que muitas vezes nossa esquerda, tal como nossa direita, se prende a pessoas e países, não a ideias norteadoras, como as de justiça, de igualdade e de liberdade.

Daí a coisa vira um grenalzinho lamentável, onde um se opõe ao outro, mas ninguém sabe quem defende o quê.

2011-03-21

A intervenção na Líbia é injusta?

A intervenção na Líbia é injusta? Trata-se de uma pergunta ambígua, pois podemos supor que duas coisas diferentes estão sendo perguntadas.

Por um lado, poderíamos estar perguntando se a intervenção militar na Líbia é justa, levando em conta que outros lugares do mundo - Burma, Iraque, Gaza etc. - exigiriam uma intervenção semelhante, visto que tais populações civis estão sob ameaça dos respectivos governos de fato ou invasores.

Nesse caso, considerando o princípio da universalidade que deve reger a ONU, temos que dizer que a intervenção não é justa, visto que não beneficia todas as populações de maneira igual.

Por outro lado, poderíamos estar perguntando se a intervenção militar (em contraste com outros tipos de medidas) na Líbia é justa, levando em conta que o governo local voltou os canhões contra a população civil.

Nesse caso, é preciso dizer que a intervenção é uma boa coisa, pois destroi armas que estavam apontadas para civis.

Em suma, uma coisa é dizer que a intervenção na Líbia é injusta por falta de aplicação universal do critério de distribuição de vantagens.

Isto é verdade, e se trata de uma boa crítica.

Mas outra coisa seria dizer que a intervenção é intrinsecamente ruim.

Ela não é.

Se eu fosse um líbio em uma cidade sob ataque das forças armadas de Kadafi, estaria comemorando-a.

2011-03-19

Crumb, Manara e outros mestres dos quadrinhos adultos por dez reais no Submarino

O Submarino tá vendendo por dez reais livros em quadrinhos de Robert Crumb, Milo Manara, Joe Sacco e Harvey Pekar. Vale a pena conferir antes que acabe o estoque ou a promoção.

De Crumb tem Meus problemas com as mulheres, Minha vida, Blues e Mr. Natural. Dele com Harvey Pekar tem Bob e Harv.

De Manara tem Encontro fatalClic, Clic 2Clic 3Revolução e El gaucho.

De Joe Sacco tem DerrotistaA guerra na Bósnia OrientalUma história de Sarajevo, Palestina e Na Faixa de Gaza.

2011-03-09

Uma leitura filosófico-carnavalesca

Aproveitei o carnaval para colocar em dia a leitura da obra do filósofo Abelardo Barbosa. Trata-se de um marco da onto-teo-logia ocidental, em uma obra cujo destaque é o conceito autoevidente de trumbicação, o qual levou O Filósofo a proferir, enquanto ria da estultície dos seus críticos: «Eu vim pra confundir, não pra explicar».

Discípulo de Heráclito, São Abelardo Barbosa reconhecia que havia críticas pertinentes à obra de seu mestre. Contudo, afirmava com convicção que «O mundo está em dicotomia convergente, mas vai mudar».

Ainda seguindo a tradição pré-socrática de investigar o cosmos e a natureza, deixou um aforismo no qual nos ensina que «A melhor lua pra se plantar mandioca é a lua-de-mel».

O ponto alto do volume Santo Anselmo / Abelardo Barbosa da coleção Os pensadores é o argumento ontológico, no qual, após demonstrar que «Honoris causa é a mesma coisa do que hors-concours», São Abelardo Barbosa nos mostra, através de premissas que são axiomas necessários, analíticos e a priori, a inexistência de Deus. O argumento pode ser esboçado nas seguintes linhas:

  1. Quem não se comunica, se trumbica (Premissa 1)
  2. Deus não se comunica (Premissa 2)
  3. Logo----- (Conclusão)
O argumento ontológico de Abelardo Barbosa causou escândalo por todo o medievo, levando à proibição papal do ensino do conceito de truo-imbicare nas Escolas durante cinco séculos. No entanto, sua obra foi resgatada pelos apólogos da modernidade do início do século XX, tendo sido a influência marcante no argumento ontológico de Alfred Jarry. 

(Os ditos de Abelardo Barbosa citados acima foram retirados daqui.)

2011-03-08

Desafios futuros para a popularidade do Brasil

De acordo com uma pesquisa da BBC, a popularidade do Brasil é a que mais cresce no mundo.

A notícia é ótima, e deve nos fazer pensar nos desafios futuros para a continuação dessa tendência.

Cito dois desafios: nossa situação carcerária e nosso modo de conviver com estrangeiros.

Sobre a situação carcerária, é fácil ver que as prisões de Abu Ghraib e de Guantánamo são parquinhos de diversão perto dos nossos presídios. Isto é absolutamente inaceitável sob qualquer critério humano, e precisa ser modificado. Mas aí vem algo que, de alguma maneira, é pior: em geral, a população rica e pobre acha que o tratamento dado aos nossos presidiários é ameno. Ou seja, ao falar sobre um problema grave como este, você encontrará ignorância, e no mínimo resistência a mudanças para melhor.

É fácil ver, também, que o tratamento carcerário depende da roupa do freguês, pois quem veste roupa comprada em xópim não é largado junto com os outros nas salas de apodrecimento humano. É o tipo de desigualdade que destroi a propaganda positiva feita pelo programa Bolsa Família.

Isto é um sério desafio à imagem do Brasil no futuro, pois nosso país com mais destaque merecerá maior atenção, o que levará a reportagens e programas de TV sobre nossos presídios, o que destruirá nossa imagem lá fora, ao mesmo tempo em que talvez faça os ignorantes domésticos pedirem mais brutalidade, criando um círculo vicioso que nos mostraria no mundo inteiro como criaturas brutais.

O desafio é desautorizar os ignorantes, o que vai dar bastante trabalho. O problema é que eles têm bastante espaço em rádios AM, onde locutores patrocinados por supermercados e seguradoras alimentam ódios e preconceitos.Há tal espaço por várias causas, uma deles é a já citada ignorância. Essa causa se enfraquece através de um lento mas fundamental trabalho de educação, incluindo mais e melhores aulas do currículo de humanidades.

O outro problema é nossa dificuldade em lidar com qualquer um que tenha um sotaque um pouquinho só diferente do nosso. Os brasileiros costumam expressar abertamente seus preconceitos e suas queixas contra quem fala um pouquinho só diferente, e tratá-los como culpados de uma falta, ao invés de tratá-los como pessoas com passados diversos, os quais as levaram a falar como falam - como acontece com todo o mundo, inclusive com os tolos que discriminam seus outros que falam de maneira diversa.

Atualmente, esse é um problema doméstico, pois a maioria dos que sofrem são brasileiros mesmo, ao viajar pelo Brasil. Já me mandaram falar direito às margens do rio Ibicuizinho, o que não afeta diretamente nossa imagem no exterior. No entanto, o que acontecerá quando famílias e trabalhadores estrangeiros migrarem para o Brasil, em busca do Brazilian dream? Talvez recebam de anônimos o tratamento vergonhoso que alguns jornalistas e artistas de grandes TVs deram aos craques argentinos que vieram jogar no Corinthians. Isto é, talvez sejam motivo de ódio e de piada por serem as pessoas que têm o passado e a formação que tem. Mas isso deveria ser motivo de admiração, ao menos se queremos ser pessoas admiráveis e manter a expansão da nossa imagem positiva.

Via Facebook do IdelberPortal Vermelho (este último sem link para o artigo original, lamentavelmente)

2011-03-06

O bolso de Kadafi tá cheio de neocons


Apesar de ser amado por Fidel "¿Por qué no te callas?" Castro, o ditador líbio Muamar Kadafi tem vários intelectuais e políticos neocons no bolso.

Peguemos por exemplo Francis "O Fim da História" Fukuyama. Ele já trabalhou em um projeto para embelezar a imagem da Líbia e de Kadafi. Mas isso não é tudo, pois Kadafi é generoso a ponto de também dar uma graninha pra intelectuais da Harvard Business School. A falta de liberdade política na Líbia não é problema para esses intelectuais - pra não falar da repressão brutal.

Além disso, Kadafi é defendido no parlamento estadunidense através de uma intrincada rede de lobistas das indústrias petrolífera e de armas. Nada extraordinário. Business as usual.

Arte via Scam

EUA: da política torpe à comunicação claudicante

A Al Jazeera corre enquanto a TV estadunidense tropeça:
Basta olhar a televisão estadunidense durante dez minutos para concluir que os comunicadores dos EUA já não têm os recursos intelectuais nem a capacidade política para montar uma propaganda exitosa bem informada. O Canal Fox é para idiotas em casa. Além disso, o que poderiam alardear os propagandistas subvencionados pelo Estado? Os ataques dos drones Predator (aviões não tripulados) no Afeganistão? Guantánamo? Trinta milhões de pessoas com trabalho precário ou desempregadas nos EUA? Os EUA já não são o que eram quando a taxa de crescimento econômico estava em alta e o capitalismo parecia capaz de cumprir suas promessas.
Arte de Kimera-Kimera

2011-03-05

Os EUA - do Nobel da Paz Obama - tentam enlouquecer o prisioneiro Bradley Manning

Vamos rever a detenção de Manning nos últimos nove meses seguidos:

confinamento solitário 23-horas/dia;

impedido até mesmo de se exercitar em sua cela;

um total de uma hora fora de sua cela por dia, onde tem permissão de andar em círculos em um quarto sozinho quando algemado, e é devolvido à sua cela no minuto que ele pára de andar;

forçado a responder às perguntas dos guardas, literalmente, a cada 5 minutos, durante todo o dia, todos os dias, e despertado à noite cada vez que ele se encolhe no canto da sua cama ou fora da visualização completa do guarda.

Existe alguém que duvida que essas medidas - e especialmente esta nudez forçada prolongada - são punitivas e destinadas a prejudicar ainda mais a sua saúde mental, saúde física e vontade?

Como The Guardian relatou no ano passado, a nudez forçada é quase certamente uma violação das Convenções de Genebra; as convenções não se aplicam a tecnicamente Manning, como ele não é um prisioneiro de guerra, mas certamente estabelecem as proteções mínimas que todos os presos - para não falar em cidadãos sem condenação alguma - têm direito.

A pintura é de Fernando Botero, no livro Abu Ghraib.

2011-03-04

O IBGE explicado aos juros-lovers

Menos de 24 horas depois de o BC elevar a taxa de juro para 11,75% -- medida profilática para desaquecer a economia e conter ‘pressões inflacionárias' decorrentes do descompasso entre oferta e demanda, explicam os consultores dos mercados financeiros -- o IBGE divulgou dados do PIB de 2010. O confronto entre os sinais emitidos pela economia real e a decisão do BC deveria inspirar, no mínimo, alguma reflexão em círculos saltitantes, dentro e fora do governo, unidos pela ciranda-cirandinha do ‘corta-corta'. Vejamos:

a) o PIB brasileiro cresceu 7,5% no ano passado em relação a 2009;

b) a retomada em 2010, todavia, não se mostrou apenas vigorosa na recuperação do tempo perdido: ela foi sobretudo notável na sua consistência;

c) o crescimento do PIB foi puxado, com folgada dianteira, pela formação bruta de capital que registrou um crescimento histórico de 21,8%;

d) mas foi principalmente a produção de máquinas e equipamentos que impulsionou esse salto na agregação de capacidade produtiva: o avanço nesse segmento atingiu 30,5% em 2010 (havia caído 13,1% no ano anterior);

e) sim, a expansão do consumo também foi robusta. Puxada por ganhos reais de salário e maior disponibilidade de crédito, subiu 7% no ano. As grandezas, porém, são eloquentes: o investimento em estruturas e máquinas para promover a ampliação da oferta está crescendo a uma velocidade três vezes superior à da demanda corrente.

Diante desse desenho, o que faz o jogral ortodoxo? Esquece-o para destacar os 'desequilíbrios' observados no último trimestre de 2010, quando, de fato, o consumo cresceu quatro vezes mais que a média da economia e a taxa de investimento retrocedeu. Nenhuma chance à possibilidade de ser um hiato em que o entusiasmo natalino do consumidor se descolou do freio empresarial, compreensível este, à véspera de um novo governo. Não. Vaticina-se o caos, somente mitigável à base de longa e virulenta dieta de 'pão e água', leia-se, menos investimentos públicos, mais juros. Assim se torna uma profecia auto-realizável.
Vale a pena ler também O malocismo avança?, de Rodrigo Vianna.

Você é o trânsito

Tu não tá preso no trânsito.
Tu é o trânsito.
Te solta desta coleira
Pedala

Copenhagenize via Débora

Disclaimer

Nota bem que eu publico aqui opiniões de diversas pessoas, o que não quer dizer que eu concorde com tudo. A responsabilidade pelo que reproduzo aqui é dos autores citados. Essa responsabilidade se estende aos autores dos comentários feitos às postagens deste blog.