
Algumas fotos descontextualizadas e um "especialista" disposto a pagar o mico de fazer o papel de Dr. Lombroso (foto da direita, abaixo). Isso foi tudo o que a revista
Época precisou para fazer uma "análise" digna da frenologia, a infame pseudociência do século 19, de Dilma Rousseff. Nosso Lombroso é o psicanalista Francisco Daudt, e suas afirmações são inacreditáveis, ainda que mui engraçadas.

A frenologia era uma pseudociência que supunha ser possível detectar a índole de alguém pelos detalhes anatômicos do seu corpo, como por exemplo o formato do crânio. Trata-se de uma teoria descabida, sem fundamento algum. A melhor ridicularização da frenologia está na
Fenomenologia do Espírito, onde Hegel diz que se a frenologia fosse verdadeira, seria fácil conhecer os cônjuges traídos, visto que esses ostentariam galhadas na testa (valeu pela referência, Gus!).
Pois bem, nenhuma pessoa séria ou informada acredita em frenologia. E, é claro, ninguém se declara frenólogo, pois pega muito mal. Ainda assim,
Época achou um "especialista" (no quê? estamos falando de pseudices!) disposto a pagar um mico frenológico. (Como bem sabemos, esse "especialista" não está sozinho. Nossos jornais e revistas estão cheios de pessoas com altos diplomas sendo usadas, o tempo todo, para corroborar a opinião da turma que compra e vende o papel e a tinta.
Ventríloquos acadêmicos há aos montes, no Brasil.)

Bem, vamos ao mico. A revista
Época fez perguntas frenológicas ao "especialista". Esse, ao invés de esclarecer os jornalistas, deixando claro que esses estavam no terreno da pseudociência, procurando por algo que não existe, falou um monte de coisas dignas de revista de horóscopo. Vamos a algumas:
«Antes dos 40, temos a cara que Deus nos deu. Depois dos 40, temos a cara que nós merecemos: nosso caráter marca nossa expressão facial»
(Após longos minutos rindo alto dessa bobagem, volto a escrever o post.) Bem amigos, tenho 37 anos de idade. Mal vejo a hora de, daqui a 2 anos e ½, finalmente deixar de lado essa cara que o bom deus me deu, e passar a ter a cara que mereço, dado meu caráter, como explica nosso bom "especialista". Meu sonho de consumo é uma cara de bonobo. Mas, vá saber o que meu caráter me destina.
Agora uma passagem heterodoxa, visto que o fenômeno stalinista é em parte posterior à morte de Freud em 1939:
«O dedo cujas costas da mão estão viradas para o interlocutor, enquanto os outros estão fechados, é um gesto stalinista, reflete o desejo de impor uma opinião.»

Viu só? Não vá confundir esse gesto que revela em um átimo de segundo algo que por vezes só aparece após décadas de análise longa e cuidadosa com o dedo do "vá se foder", hein? Ainda bem que nosso psica nos revela as profundezas totalitárias do gesto. Super bem embasada, super çientxífika a visão do "especialista". Obrigado, Época.
E, pelo jeito, o predicado "estalinista" e a gramática dos dedos em riste faz parte do DSM ou das obras de Freud. Ou ao menos algo assim é o caso, dado o que diz nosso "especialista".
Bem, chega. Moral da história, assim abrupta e vagamente: é previsível que um frenologista diga disparates. E, infelizmente, também é previsível que uma revista submediocre as publique. A coisa vale pela diversão, apesar de dar pena dos incautos que levam a pândega tonteria a sério, talvez até mesmo pagando pelo mau produto.
Agora, os links sobre a lombrosagem com Dilma da revista Época: