- Túlio Vianna, Sobre O Uso Da Burca Na França: Direito Ou Opressão?
- Cynthia Semíramis, Roupas Também São Uma Forma De Opressão
As postagens são ótimas, e os debates nos comentários são imperdíveis. Eis alguns trechos. Primeiro, da Cynthia. Eis um trecho contínuo do seu texto:
Nessa perspectiva altamente controladora do corpo e da imagem das mulheres, usar uma burca é uma forma de deixar claro que a mulher tem dono. Ela não tem identidade visual, nem aparência definida. É apenas alguém inferior a um homem, e que lhe deve obediência e respeito. Sua incursão no espaço público é tão exótica que precisa ser estigmatizada, para lembrar àquela mulher que sua cultura diz que seu lugar na sociedade é apenas no espaço privado, obedecendo a um homem, além de lembrar aos outros homens que ela tem dono, estando interditada para eles.Agora, do Túlio. Os trechos foram pinçados da postagem e dos comentários:
É por isso que dou toda razão a Nicolas Sarkozy quando ele afirma que a burca “reduz a mulher à servidão e ameaça a sua dignidade“. Em jogos de poder, roupas não são apenas um pano cobrindo e protegendo o corpo, mas um sinal claro de status social.
Ah, irão falar em liberdade de escolha. Que liberdade de escolha tem uma pessoa que, desde a infância, aprende que deve se portar e vestir de determinadas formas para reforçar sua feminilidade/condição social? E todos no espaço público reforçam essa mensagem afirmando que é assim que tem de ser, por respeito a uma questão cultural ou religiosa? Como essa pessoa será livre pra escolher se a pressão que ela sofre é para se submeter a essas regras, ou, como alternativa, ser acusada de desonrar a família e até morrer por isso?
Não cabe a um Estado Democrático permitir que esses micropoderes se perpetuem, reforçando desigualdades entre homens e mulheres. E não cabe desviar a questão para a liberdade religiosa, pois aqui a religião atua como uma desculpa para legitimar um sistema de dominação que se pretende ser superior ao Estado. Um Estado laico realmente digno desse nome não pode permitir que, sob o pretexto de liberdade religiosa, seja mantido todo um sistema de opressão a mulheres, transformando-as em sub-cidadãs que precisam, a cada passo, se lembrar e propagandear que são propriedade masculina e que não têm autonomia sequer para se vestir da forma que desejarem.
Não existe direito à liberdade de ser oprimido. Da mesma forma que a mulher não tem a “liberdade religiosa” de ter seu clitóris mutilado, ela não tem o “direito de optar” por usar a burca, pois neste caso está claro que não é uma opção, mas uma opressão.
O direito à liberdade religiosa não é uma carta-branca dada ao clero para afrontar outros direitos fundamentais da pessoa humana. Pena de lapidação para mulheres adúlteras, mutilação genital feminina e obrigatoriedade do uso da burca não são um exercício razoável do direito à liberdade religiosa, mas uma violação gritante ao direito fundamental à igualdade entre os gêneros que está consagrado nos estados democráticos contemporâneos.
A burca não é um mero símbolo de adoração religiosa; ela é um instrumento de opressão dos homens sobre as mulheres. O crucifixo e a quipá não oprimem as mulheres, então seu uso não viola o princípio da igualdade de gênero. Não há, pois, qualquer necessidade de ponderção de princípios e a liberdade religiosa prevalece.
Não é pelo fato de o oprimido concordar com o discurso legitimante de seu opressor que ele deixa de ser oprimido.
Ora, em um estado de direito laico, parece-me inadmissível que o direito à igualdade de gêneros seja violado a pretexto de se tutelar o direito à liberdade religiosa. Fosse assim, os franceses deveriam permitir também restaurantes para canibais, em respeito à diversidade antropológica de possíveis imigrantes.
O limite da liberdade religiosa está, não só na integridade física e no direito à vida, como você colocou, mas em qualquer outra violação a direito fundamental da pessoa humana, como a igualdade. O direito não pode permitir que, a pretexto da liberdade religiosa se dê tratamento desfavorável a negros, homossexuais ou mulheres.
Todos nós sofremos pressões sociais quanto às nossas vestimentas. Não fosse esta pressão, talvez eu nunca tivesse vestido um terno. Só que esta pressão social não me obriga a vestir uma roupa que me coloca em posição simbólica de clara inferioridade em relação a um outro grupo social.
