2009-05-28

Os deformadores de opinião e os presídios

O RS Urgente traz um texto fundamental de Lupiscinio Pires sobre a situação humanamente inaceitável dos presídios e as gracinhas ditas em rádios e escritas em jornais pelos deformadores de opinião. Eis o texto:
Não há como negar que a politica preconizada pelos chamados formadores de opinião “deu certo”. Os presídios estão destruídos ou semidestruídos. Ao longo dos anos as pessoas que pregavam investimento no sistema carcerário gaucho eram ridicularizados por vários jornalistas. Qualquer pessoa que fizesse a pregação da melhora dos presídios recebia o rótulo de “defensor dos bandidos”. Expressões do tipo “cadeia não é hotel”, “bandido tem que passar trabalho” eram recorrentes nos horários matutinos do rádio gaucho. Foram anos e anos. Havia um clamor por certos setores da imprensa insistindo que o Executivo não devesse investir um centavo na melhoria dos estabelecimentos prisionais. A politica de segurança pública sugerida pelo chamados formadores de opinião foi exitosa. Os presídios estão desabando.

Quem tem memória lembra da pregação insistente da deterioração do setor carcerário gaucho. [...] O sucateamento dos presídios é tão grande que a bárbarie se generalizou. “Deu certo” a pregação de determinados jornalistas. O que fazer agora? Era o momento destes mesmos jornalistas apontarem a solução para o caos instalado.
Eu comentei:
Postagem fundamental, Marco. O problema é sério, e nossas autoridades estaduais e nossos deformadores estão muito abaixo do nível mínimo de visão requerido. Quem paga o pato somos nós. O festival de incompetência e irresponsabilidade é enorme. O governo federal disponibilizou R$ 44 milhões para o governo estadual do RS investir em presídios, mas nada foi feito. Juízes que se recusam a enviar pessoas aos presídios sofrem assédio moral por parte dos deformadores de opinião. E, o pior de tudo: nós brasileiros temos um conceito infeliz de direitos humanos, segundo a Anistia Internacional. Aqui é fundamental apontar responsabilidades: os deformadores de opinião das rádios e jornais tendem a pender pelo tratamento cruel de suspeitos, aprovam isso. Eis como chegamos a esse quadro bárbaro.

2009-05-26

Ninguém merece nossas prisões

Parte da blogosfera manifestou desconforto com o caso de uma quadrilha de ladrões de caminhão presa em flagrante pela polícia, e solta pelo judiciário, por causa da situação calamitosa dos nossos presídios. Eu comentei no Cloaca News:
Concordo com o juiz. Um país cheio de petróleo como o Brasil não pode ter calabouços como prisões. Se NÓS aceitamos a realidade carcerária (e a responsabilidade é NOSSA), com todo seu horror digno de intervenção da ONU, pior para nós. Agora vamos sofrer as consequências. Palmas para o juiz pela sua responsabilidade.
Em suma: se NÓS nos damos ao luxo de ignorar a realidade dos presídios, pela qual somos responsáveis, pois estamos em uma democracia, então NÓS devemos ou mudar as coisas, ou sofrer as consequências, como a delinquência nas ruas. 

O que é certo é que ninguém merece estar nas nossas prisões, não importando o que tenha feito. Ou mudamos isso (tarefa NOSSA), ou aceitamos criminosos flagrados nas ruas. Não fazer nada é o mesmo que ficar com a segunda opção. 

O juiz em questão é Paulo Augusto Oliveira Irion, da 4ª Vara Criminal de Canoas, região metropolitana de Porto Alegre.

PS - A Agência Brasil está fazendo uma ótima cobertura da horrenda situação carcerária do Brasil. 

Vírus, ou como ser responsável pelos seus próprios tormentos

primeiro as pessoas te perguntam porque têm vírus nos seus computadores

daí você explica que é porque elas abrem aqueles anexos tontos (mensagens buítas, idéias meia-boca inevitavelmente atribuídas a luis fernando veríssimo ou dráuzio varela) que os amigos e parentes mandam por email

ou vêem pornografia no internet explorer ao invés do k-meleon 

ou respondem (ao invés de denunciar como spam ou simplesmente apagar) a emails indesejados pedindo para não mandar mais emails, o que só garante que virá cada vez mais emails indesejados, pois agora o abusador (spammer) sabe que teu email é usado por alguém (você mesmo) 

ou tentam instalar programas que não precisam ser instalados, só porque uma mensagem que vem do nada pede para instalá-los

ou entram em sites russos (com final .ru) 

daí as pessoas te olham como se não tivessem escutado nada, dizem que só sabem fazer essas coisas (ou demonstram que isso é o todo do seu universo conhecido), e perguntam, como se fosse a primeira vez:

porque têm vírus nos seus computadores?

ps - nem todo problema de lentidão é causado por vírus -- passe o ccleaner de vez em quando e note a diferença

2009-05-25

Hoje é dia de dizer sim à liberdade

Em Porto Alegre, hoje é dia de ir para a rua e dizer sim à liberdade de expressão e comunicação na internet. Eu chamaria tal evento positivo e afirmativo do que há de mais real e concreto de mega-sim à liberdade e à privacidade, direitos que não podem ser usurpados. 

O ato em favor da liberdade e da intimidade tem como objetivo conscientizar as pessoas dos seus direitos mais fundamentais, e, no que diz respeito à internet, alertá-las sobre tentativas de usurpação de tais direitos, tais como a do projeto de lei do senador Azeredo, do PSDB-MG. Na prática, esse projeto acaba com a privacidade na internet através de mecanismos de controle e vigilâncias que são intoleráveis em sociedades liberais como a nossa. 

Temos o direito à nossa privacidade, e temos o direito de sermos considerados inocentes até prova em contrário. A vigilância sobre nossos atos só é aceitável caso já haja ótimas razões sólidas para suspeita de que ferimos a legalidade, e tais suspeitas sólidas não podem partir da violação indevida da privacidade. Além disso, nossas liberdades e prerrogativas são inegociáveis, e não podem ser tolhidas de modo algum. Simplesmente temos o direito de nos comunicar e expressar livremente, sendo responsáveis pelos ganhos sociais de tal comunicação, e também por eventuais danos. 

Também temos o direito a uma vida privada, a qual cruza pelo espaço público, o que faz com que as instituições públicas devam esmerar pela preservação desse direito nesse espaço, não pela exposição e vigilância sobre a privacidade de cada um. 

Por defender tais direitos básicos, e por considerar importante a conscientização das pessoas sobre suas prerrogativas legais e morais, participarei do evento. Será hoje, 14h, na Assembléia Legislativa do RS (Praça Marechal Deodoro, 101). 

Para mais informações, veja o site InternetLivre.org e o blog Mega Não !. No Twitter, siga a palavra-chave #meganao

O evento será transmitido ao vivo pela TV Software Livre

2009-05-22

A Viúva Porcina e a propriedade privada

Olhem só:
A atriz global e pecuarista Regina Duarte, em discurso na abertura da 45ª Expoagro, em Dourados (MS), disse que está solidária com os produtores e lideranças rurais quanto à questão de demarcação de terras indígenas e quilombolas no estado. “Confesso que em Dourados voltei a sentir medo”, afirmou a atriz, neste domingo (17), com referência à previsão de criação de novas reservas na região de Dourados. “O direito à propriedade é inalienável”, explicou ela [...]. (Patria Latina via Blogoleone
A pecuarista Regina Duarte está errada no medo, e também erra no alvo na sua defesa da propriedade privada, pois são os índios que precisam ter medo dela e dos outros pecuaristas. Vamos aos fundamentos do libertarismo, a teoria que mais radicalmente defende a propriedade privada, ainda que ao custo de uma desigualdade social abissal. 

De acordo com o libertarismo, alguém têm direito a um bem se uma das duas condições a seguir estiver satisfeita:
  • Chegou primeiro
  • Adquiriu ou ganhou de alguém que chegou primeiro e abriu mão do bem voluntariamente
Por exemplo: se você tem um pedaço de terra que comprou de alguém que quis vendê-lo, sem ser coagido, e esse alguém ou comprou o pedaço de terra sob tais condições, ou chegou primeiro, então sua posse da terra é legítima. Caso contrário, você não tem direito ao pedaço de terra em questão. 

Vejam bem: isso é o que diz a teoria que mais radicalmente defende o capitalismo. Reiterando: isso não é o que diz alguma teoria comunista ou socialista. 

Agora, vamos às terras dos pecuaristas do Mato Grosso do Sul. Se tudo deu certo segundo as exigências do libertarismo, então eles as adquiriram de alguém que chegou primeiro e as vendeu ou doou voluntariamente, sem sofrer coerção alguma. Mas, como sabemos, de maneira geral não foi isso o que aconteceu, pois os índios foram escurraçados das suas terras por capangas armados, e suas terras foram griladas. 

Logo, o que diz o libertarista sobre isso? Bem, ele diz que a propriedade da terra é dos índios!Assim: pecuaristas, incluindo Viúva Porcina, caiam fora !

Assim, se alguém tem algo a temer nesse caso, certamente são os índios, pois mesmo os mais radicais defensores do capitalismo sabem que eles foram roubados. 

Enquete: O Hermenauta e o Twitter

Ao lado, uma enquete: quando você acha que O Hermenauta vai, finalmente, aderir ao Twitter? Eis o link direto:
A votação acaba em uma semana. 

Pra quem ainda não conhece, O Hermenauta é um dos blogs mais bacanas da lusosfera. Vai lá e confere. 

2009-05-21

Yeda, corrupção, e o ardil 22

A mídia gaúcha e a situação (PSDB, PMDB, PDT, PFL, PP) apoiam sua rejeição de uma CPI sobre a corrupção no governo Yeda Crusius em um argumento ruim. Por exemplo, diz uma blogista do jornal Zero Hora:
a CPI [...] Só não será sepultada se surgirem fatos novos [...] com tantas denúncias pipocando contra o governo, falta um fato determinante para embasar o pedido de CPI. (via RS Urgente)
O professor de lógica e filosofia Rodrigo Guedes avalia esse argumento:
A CPI para “investigar de tudo um pouco” não sai porque com “tantas denúncias pipocando”, fica “carente de foco”: falta um “fato determinante”. Por outro lado, a CPI só sai “se surgirem fatos novos”. Em resumo: a CPI não sai porque, com tantos fatos, falta um fato determinante e a CPI fica carente de foco. A CPI só sai se “pipocarem novas denúncias” e surgirem novos fatos. Mas aí a CPI não sai porque, com tantas denúncias pipocando, são tantos fatos que falta um fato determinante e a CPI fica carente de foco. Mas quem sabe… se surgirem fatos novos... (via RS Urgente)
E eis que chegamos ao ardil 22:
Ardil 22 é uma expressão cunhada pelo escritor Joseph Heller no seu romance Ardil 22, descrevendo um conjunto de regras, regulamentos, procedimentos ou situações as quais apresentam a ilusão de escolha ao mesmo tempo em que impedem qualquer escolha real. (Wikipédia)
O ardil 22 é o famoso se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Só que, no caso da situação e da mídia gaúcha, o sinal é invertido: se houver corrupção demais, então não dá para investigar direito, pois não haverá foco; e, se investigar uma coisa a valer, muito ficará fora da investigação. Assim, dizem tais figuras do nosso cenário público, não dá para investigar. 

O uso desse argumento dessa maneira não é novidade. Após o massacre do Carandirú, no qual 111 presos foram assassinados pela polícia de São Paulo, uma autoridade foi contra o pedido legal de uma investigação criminalística que apontasse qual policial matou qual preso com qual bala (seria ótimo localizar a fonte dessa informação, está nos arquivos da Folha de São Paulo da época), pois os policiais atiraram tanto, mas tanto em cada um dos presos que a análise balística levaria anos. 

Em um e outro caso, o uso de tal argumento tem como objetivo manter oculto o crime e a injustiça. Assim como a dificuldade de saber quem matou quem no Carandirú não é razão para não investigar, o fato de haver suspeita de corrupção em grande quantidade e em diversas modalidades não é razão para não se investigar a corrupção. Ao contrário, isso sim é razão para investigar!

O ministro, os jovens, e a TV

Certa tarde de domingo, os desafortunados espectadores do Domingão do Faustão assistiram a mais ou menos o seguinte diálogo inusitado entre o apresentador Fausto Silva e a cantora Adriana Calcanhoto:
Fausto: Você gosta de música?
Adriana: Não, eu não gosto de música. Eu odeio música! 
O diálogo acima foi inusitado pela resposta irônica da entrevistada, a qual é bem inteligente. Mas não é inusitado pela pergunta estúpida do apresentador. No Faustão, geralmente os entrevistados fazem cara séria, e respondem às perguntas estúpidas como se fossem perguntas inteligentes. Poucos não suportam a estupidez e chutam o pau da barraca, como Adriana Calcanhoto fez. 

Programas de TV são povoados por perguntas e pressupostos estúpidos como os que regem a escolha de perguntas de Fausto Silva. (Lembre do "Homer" visualizado pelo jornalista responsável pelo Jornal Nacional.) A doutrina por detrás dessa escolha é que o incompreensível afasta o público, o compreensível o atrai. E a TV quer público em quantidade, pois é remunerada pela quantidade de público. Assim, o pessoal da TV faz perguntas estúpidas na TV e apresenta programas estúpidos porque assim supostamente mantém a audiência dos que não são estúpidos, pois esses podem compreender uma estupidez, e não afasta a audiência dos estúpidos, pois esses compreendem o que é suficientemente estúpido para seu nível de compreensão. 

A doutrina acima é perversa, pois estimula a estupidez, e essa não é um bem social, nem deve ou precisa ser estimulada. Podemos chamar tal doutrina da TV de doutrina da estupidez. Se essa doutrina está certa, então os mais estúpidos não são afastados, e os mais espertos aguentam o que é estúpido, pois isso ao menos é compreensível, e todos querem o conforto do conhecido, todos têm medo do desconhecido. 

Bem, mas a doutrina está errada, pois nem todos têm medo do desconhecido, e os mais espertos preferem programas mais espertos. Eis porque, com a vulgarização do acesso à internet e a outras mídias onde todos podem produzir conteúdo, e há mais inteligência, houve migração e transformação de espectadores da TV para agentes do universo da web. E assim a TV e outras mídias que se regem pela doutrina da estupidez perderam público. 

Entra o ministro das comunicações do Brasil, o sr. Hélio Costa. Ele está muito preocupado com o faturamento das empresas de rádio e TV, nem um pouco preocupado com a nocividade da estupidez para os jovens, como mostra a seguinte notícia:
“Juventude tem que “despendurar” da internet e voltar a ver TV, diz ministro

A abertura do 25º Congresso Brasileiro de Radiodifusão, promovido pela Abert, nesta terça-feira, 19, contou com um comentário inusitado do ministro das Comunicações, Hélio Costa. O ministro fez uma defesa arraigada do setor de rádio e televisão, e sugeriu que os jovens devem usar menos a internet e assistir mais programas de TV e de rádio.

“Essa juventude tem que parar de só ficar pendurada na internet. Tem que assistir mais rádio e televisão”, afirmou o ministro em seu discurso, após relembrar a distância entre o faturamento da radiodifusão e das telecomunicações. “O setor de comunicação fatura R$ 110 bilhões por ano. Desse total, somente R$ 1 bilhão é do rádio e R$ 12 bilhões das TVs. O resto vocês sabem muito bem onde está”, provocou o responsável pelas comunicações do país.” (Teletime
O Hermenauta comenta:
Vejam que o Ministro não está dizendo que os jovens têm que largar a internet e ir namorar, ou estudar, ou praticar esportes. Está dizendo que os jovens têm que despendurar da internet -- que é uma indústria de telecomunicações -- e se pendurar na televisão -- que é uma outra indústria de telecomunicações, mas é mais próxima ao Ministro.
E, por que os jovens têm que voltar para a TV? Ora, porque o setor de rádio e TV fatura apenas 13 bilhões/ano de um total de 110 bilhões/ano faturado pelo setor de comunicações, só por isso! 

Ainda bem que Hélio Costa não é ministro da saúde, pois ele poderia ser convidado a palestrar em um congresso da indústria farmacêutica, e acabaria reclamando das pessoas que abandonam o cigarro e não desenvolvem câncer e das pessoas que abandonam o açucar e não desenvolvem diabetes. 

2009-05-19

Terrorismo e tortura

Inspirando Jack Bauer, caras como Dick Cheney têm defendido a tortura de terroristas. Como se isso não fosse problema suficiente, a vulgarização do debate no Brasil passa por cabeças-ocas locais, os quais dizem em revistas de grande circulação que nós (isto é, nós brasileiros) não temos alternativa a não ser torturar --- como se não fizéssemos isso o tempo todo nas delegacias! Como se isso não fosse uma vergonha comum ao Brasil, ao Egito e outros locais nem um pouco exemplares! 

Enfim, temos um problema complexo, e os opinadores de grandes revistas locais tornam o mesmo bem confuso ao pastichar, sem ajuste de coordenadas geográficas, os textos conservadores que mais amam. 

Vamos ao início. Um terrorista é alguém que mata inocentes com finalidade política. Trata-se de uma definição clara e simples, e a mesma mostra, para dar um exemplo, que a gurizada das forças armadas de Israel que barbarizou em Gaza na virada do ano foi instrumento de uma prática terrorista. Daí vem a questão moral: os palestinos tinham o direito moral de torturar esses soldados para evitar a morte dos seus filhos, filhas, irmãos e pais, todos civis e inocentes? 

Digamos que um pai de família palestino tivesse a determinação e o estoque de cafeína de um Jack Bauer, estivesse preso em Gaza, quisesse evitar que seus filhos pequenos fossem dilacerados por bombas teleguiadas, estivesse ajudando um soldado israelense perdido do pelotão e ferido, tivesse ótimos motivos para acreditar que este soldado poderia lhe dizer como evitar a horrenda perda dos seus filhos, mas o soldado nada lhe dissesse. Enquanto isso, as bombas caem ao redor, o tempo urge. Isso daria a esse pai o direito de torturá-lo para salvar a vida dos seus filhos? 

Claramente, não. É simples: tortura é intrinsecamente imoral, e ponto final. Quem decide torturar está sempre sujeito às sanções morais e legais cabíveis, e deve assumir claramente que errou, ao invés de tergiversar. (Esta é a visão do filósofo John Perry, e concordo com ela.) 

Talvez o pai de família do nosso exemplo decida torturar o soldado ferido, motivado pela tentativa de salvar as vidas dos seus filhos. Isso seria errado, ainda que este soldado fosse, de fato, um instrumento de uma prática terrorista. Do mesmo modo, torturar meros suspeitos de terrorismo, como os EUA fizeram, é moralmente injustificável. 

Vejam que a discussão, assim colocada, nada tem a ver com a eficiência da tortura, pois tal questão simplesmente não cabe. Comparando: roubas bolsas é uma maneira de ter meios para pagar as contas, mas isso não torna o furto algo moralmente aceitável. Do mesmo modo, ainda que a tortura fosse uma maneira de salvar vidas, isso não tornaria a tortura moralmente aceitável. Claro, há quem decida torturar, assim como há quem decida roubar. Mas uns e outros estão simplesmente errando, e devem ser cobrados pelos seus erros, apesar das desculpas, tergiversações e veja-bens apresentados à guisa de fundamento moral. 

*

Quanto à nós brasileiros, temos todas as razões para deplorar a tortura de suspeitos comuns. Está mais do que na hora de investirmos muito dinheiro em polícia científica, coisa que se originou antes do telefone, na virada do século 19 para o século 20, quando o personagem Sherlock Holmes foi criado. Não é nenhuma novidade, está faltando por aqui, e ajudaria a dar fim à vergonha das confissões extraídas à base do cacete. 

2009-05-18

RS Urgente em novo endereço

O blog RS Urgente, do jornalista da Carta Maior Marco Weissheimer, é a melhor e mais importante fonte de informações políticas do Rio Grande do Sul. Eis seu novo endereço:


Vá lá, e leia notícias por completo, e com muita antecedência em relação aos jornais e revistas vendidos. E aproveite também para visitar os outros blogs hospedados no OPS!

2009-05-08

Por que não sou vegetariano?

Este é o tipo de postagem que só vai me trazer problemas..... Quero discutir a moralidade do consumo de carne. 

Acompanho discussões sobre vegetarianismo, e acho que os vegetarianos estão certos em algumas coisas, como:
Se um ser é capaz de sofrer, é crueldade fazê-lo sofrer por um motivo fútil
Animais são capazes de sofrer
Logo, é crueldade fazê-los sofrer por um motivo fútil
Este é um ótimo argumento. No entanto, tudo o que segue dele é que não devemos fazer um animal sofrer por um motivo fútil, não o vegetarismo. Segue do argumento que a linha de produção da Sadia é imoral, mas não segue que o consumo de carne é imoral. 

A linha de produção da Sadia é imoral, pois faz os animais sofrerem com doenças e desconforto pelo lucro, e esse é um motivo fútil para o sofrimento. 

Mas quem come carne não está fazendo um animal sofrer por um motivo fútil, pois está se alimentando. 

Talvez se pudesse objetar que tal consumo é fútil, pois há a opção vegetariana. Mas não vejo como uma opção alimentar que traz saúde há milênios possa ser considerada fútil, e por isso acho que essa objeção não decola. 

Eis porque acho moralmente aceitável comer carne, embora ache moralmente reprovável o modo como os animais são tratados por grandes produtores como a Sadia e a Perdigão. É por isso que não sou vegetariano, embora busque consumir produtos de criadores que mitigam o sofrimento dos animais. 

2009-05-07

O que um liberal diria sobre a política para a educação de Yeda Crusius?

Quero mostrar algo muito simples: você não precisa ser extremista de esquerda para rejeitar a política da governadora do RS Yeda Crusius (PSDB) para a educação. Basta que você seja um liberal. 

Um liberal igualitarista diz que temos instituições que promovem a justiça social caso:
  • As liberdades básicas sejam resguardadas -- direito a votar e ser eleito, a se expressar e pensar, de ser tão rico quanto qualquer outro, de chegar a qualquer cargo que outro possa chegar e de ter auto-estima elevada. 
  • Só haja desigualdades que melhorem a situação daqueles em pior situação -- caso contrário, as desigualdades são inaceitáveis, pois não promovem a justiça social.
  • Os indivíduos que estejam em situação de desvantagem, mas não sejam os culpados por isso, recebam reparações e compensações que os deixem na mesma situação dos outros que não tiveram tais desvantagens -- pois só assim se chega a um quadro de justiça social.
Pois bem, leio em As Outras Margens e no Cloaca News que os professores da rede estadual de ensino público do RS passarão a lecionar disciplinas para as quais não têm diploma, por decisão da governadora Yeda Crusius. O que um liberal diria disso?

O liberal diria que tal decisão colocará os alunos da rede pública de ensino em uma situação de desvantagem em relação aos alunos da rede privada, pois quem tem aulas dadas por professores devidamente diplomados têm aulas de melhor qualidade. Por exemplo, alguém que tem aula de biologia com um professor de biologia terá melhores aulas do que alguém que tem aula de biologia com um professor que carece desse diploma. 

Qual o resultado de ter aulas com professores inadequadamente diplomados? Obviamente, a desvantagem em relação aos alunos que têm aulas com professores devidamente diplomados. 

E quem é o culpado por tal desvantagem? Não é o aluno. 

Ora, se o culpado pela desvantagem não é o aluno, então ele merece reparação e compensação!

Em suma, um liberal diria que o aluno da rede pública que tiver aulas de professores menos qualificados do que outros alunos de outras escolas deverá receber uma reparação, pois do contrário as instituições não estariam promovendo a justiça social, a qual é, pura e simplesmente, sua finalidade.  

2009-05-06

Bombacha em Paris

Eis um causo verídico, relatado por um amigo que morou em Paris por um ano. Ele estava conversando com o francês proprietário do apartamento que ele alugava e sua (do francês) namorada:
Francês: Então, você não trouxe sua roupa de gaúcho? O outro rapaz (gaúcho) que alugava esse apartamento trouxe.

Meu amigo: Eu não tenho uma roupa dessas. 

Francês: Ah.....

Namorada do francês: Como é essa roupa?

Francês: Ah, é algo profundamente afeminado, com enfeites do lado.
Vá saber o que ele pensa dos escoceses e suas saias. 

2009-05-04

novos sons

minha lista de mp3 já estava de matando de tédio, o que me levou ao pop mata em busca de novidades

foi final feliz --- descobri bandas como japandroids, condo fucks, maxïmo park, pet lions e cocoon

danke, pop mata ! mas uma vez uma vida foi salva pelo rock'n'roll

2009-05-02

Estabelecendo os nomes daqueles que pereceram

Leio no Pravda (via Blogoleone) que operários encontraram um bilhete que havia sido escrito e escondido por prisioneiros de Auschwitz. De acordo com o Pravda:
A mensagem contém os nomes de seis Pólacos e de um francês, todos entre 18 e 20 anos, assim como seus números de acampamento e cidades natais. Os homens foram obrigados a construir o abrigo.

Pelo menos dois deles sobreviveram ao acampamento Nazi, disse um oficial do museu de Auschwitz.
O achado da nota já é importante por si só, pois qualquer escrito deixado por um sobrevivente do horror de Auschwitz é importante. Por trazer os nomes e atividades desses jovens, a nota ganha mais importância, pois nos ajuda a lembrar daqueles que foram relegados a um duplo assassinato, primeiro da pessoa, segundo da memória dessa pessoa. Não custa lembrar que a "solução final" era para ser a mais importante página não-escrita do Terceiro Reich, segundo seu propagandista. Ou seja, ao crime do assassinato se somaria o crime de apagar os vestígios da vida e do sofrimento dos assassinados. 

Precisamos lembrar, de maneira precisa, dos horrores e das vítimas de massacres como os de Auschwitz, pois impedindo que a memória seja assassinada nós impedimos que os algozes tenham uma vitória que almejavam, ainda que tenham sido derrotados no campo de batalha. Esse dever de lembrar foi declarado pelo poeta polonês Zbigniew Herbert no poema "Sr. Cogito e a Necessidade de Precisão" ("Mr. Cogito and the Need of Precision", na tradução para o inglês que se encontra no livro Report from a Besieged City). Herbert escreve, na minha tradução: 
quão difícil é estabelecer os nomes
de todos aqueles que pereceram
na luta com o poder inumano

[...]

e ainda assim nesses assuntos
acurácia é essencial
não devemos estar errados
mesmo por um único

somos apesar de tudo
os guardiões dos nossos irmãos

ignorância sobre aqueles que desapareceram
solapa a realidade do mundo

[...]

logo temos que saber
que contar exatamente
chamar pelo primeiro nome
providenciar uma jornada
Herbert nos diz que, coletivamente, temos o dever de lembrar dessas vítimas. A nota recém encontrada nos ajuda a realizar essa tarefa, e assim nos ajuda a cumprir nosso dever para com nossos irmãos humanos que foram vítimas do horror inumano. 

Disclaimer

Nota bem que eu publico aqui opiniões de diversas pessoas, o que não quer dizer que eu concorde com tudo. A responsabilidade pelo que reproduzo aqui é dos autores citados. Essa responsabilidade se estende aos autores dos comentários feitos às postagens deste blog.