Image by Márcio Cabral de Moura via Flickr
Acho importante assinar o
abaixo-assinado a um manifesto em repúdio ao jornal Folha de São Paulo, nos casos da reescrita do passado com o quase-neologismo "ditabranda" e da réplica
ad hominem contra os professores Fábio Comparato e Maria Benevides.
Há intelectuais de peso entre os proponentes do abaixo-assinado, como
Antonio Candido, Maria Rita Kehl e
Michael Löwy. Eis um
trecho do manifesto:
Perseguições, prisões iníquas, torturas, assassinatos, suicídios forjados e execuções sumárias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar no período mais longo e sombrio da história política brasileira. O estelionato semântico manifesto pelo neologismo “ditabranda” é, a rigor, uma fraudulenta revisão histórica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos no pós-1964.
Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a “Nota de redação”, publicada pelo jornal em 20 de fevereiro (p. 3) em resposta às cartas enviadas à seção “Painel do Leitor” pelos professores Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fábio Konder Comparato. Sem razões ou argumentos, a Folha de S. Paulo perpetrou ataques ignominiosos, arbitrários e irresponsáveis à atuação desses dois combativos acadêmicos e intelectuais brasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio e solidariedade ante às insólitas críticas pessoais e políticas contidas na infamante nota da direção editorial do jornal.
Eis um resumo do caso. A
Folha disse que o Brasil dos anos 1960-80s passou por uma "ditabranda". Os professores Comparato e Benevides questionaram a
Folha, mas não receberam nenhuma resposta adequada segundo as mais singelas regras do diálogo lógico. Ao invés disso, suas pessoas foram atacadas. Isso mostra que os redatores da
Folha, além de terem uma visão equivocada da história do Brasil, estão com dificuldades mais básicas, da ordem do mero raciocínio lógico, pois cometem a falácia do
argumento ad hominem, caso no qual, ao invés de se argumentar sobre o tema em pauta, se agride o interlocutor. Ou seja, do ponto de vista lógico, a agressão da
Folha contra os professores Comparato e Benevides é mera fuga do assunto. Há, também, problemas de ordem linguística, como nota
Idelber Avelar:
Qualquer bom professor de história do primeiro grau sabe que não há nenhuma tradição bibliográfica de uso do termo “ditabranda” para designar o regime militar brasileiro, a ditadura de 1964-1985. Aos escrever as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985, o jornal simplesmete mentia aos leitores. Não “errava” ou “tinha um ponto de vista diferente”. Mentia, pois a ditadura brasileira não é “chamada” de ditabranda por ninguém. Não era, pelo menos, até o dia 17 passado. Se tivessem, para compensar os livros que não leram, utilizado por dois minutos a internet que tanto temem, os membros do Conselho Editorial da Folha teriam descoberto que o termo “ditabranda” vem do espanhol e foi usado para caracterizar o regime que precedeu a República Espanhola dos anos 30. Depois, na Argentina, a ditadura de Onganía (1966-70) chegou a ser chamada de “ditabranda”, a princípio por falta de notícias sobre a extensão de seus crimes, e depois ironicamente, para acentuar os horrores da outra ditadura que se seguiria (1976-83).
Ou seja, além de reinventar o passado, a
Folha reinventa o modo como falamos do passado. E parece achar que fazia isso com um neologismo, enquanto na verdade usava um termo já usado, de maneira irônica, para se falar da truculenta e homicida ditadura argentina.
Até o momento, mais de 3.000 assinam abaixo do manifesto. Se você concorda com a nota de repúdio à fantasia da Folha e solidariedade aos professores Comparato e Benevides,
assine você também.
PS - Caso queira mais motivação para
subscrever o manifesto, leia este
depoimento de Leo Vidigal lá no
Biscoito Fino:
Fiquei sabendo somente agora dessa pisada da Folha e demorei para conseguir me controlar e escrever algo coerente. Esse papo de "ditabranda" me provoca sentimentos inconfessáveis. Meu pai foi assassinado dissimuladamente, deixado em casa quase morto e teve como causa mortis pancreatite por trauma, trauma este devido às torturas realizadas no DOPS do Rio. Mas até hoje não conseguimos provar,pois todos os registros de sua passagem por lá estão ainda fora de nosso alcance e pela maneira como ele morreu, fora das dependências policiais. Quantos não pereceram dessa forma? Quantos estão alijados das estatísticas da "ditabranda"?