2010-01-31

Se Deus é fiel, e todo fiel paga 10%... (Domingo cabeça)

Eis um pequeno sofisma pra animar o domingo:
Todo fiel deve dar o dízimo para a igreja (Doutrina da igreja I.I.)
Deus é fiel (Slogan da igreja I.I.)
Logo, Deus dever dar o dízimo para a igreja (De acordo com as premissas acima)
Solução? Dá uma olhada no Guia das falácias.

Armas nucleares, EUA, e sanções internacionais (Mundo)

No discurso "O estado da União", Obama prometeu sanções internacionais ao Irã, por suposta proliferação nuclear do tipo que incomoda a Agência Internacional de Energia Atômica, no caso de Israel, a quem Obama não promete sanções. Juan Cole comenta, sobre a promessa de Obama:
Nem uma nem muitas sanções, de tipo algum, funcionarão no Irã, para provocar mudança de regime. Sanções servem para debilitar o país e dificultar, até o tormento, a vida diária de civis – o que já se viu no Iraque. Mas sanções não arrancam do poder as elites que reinam nos países do petróleo, porque petróleo que brote do chão é altamente contrabandeável e pode ser convertido em dinheiro, e o dinheiro pode ser sempre facilmente canalizado para a mesma elite governante. A arrogância com que senadores dos EUA falam de sanções contra o Irã é mera arrogância e não dará qualquer dos resultados esperados, sobretudo porque a China não imporá qualquer sanção ao Irã.

Se Washington apertar os parafusos de sanções, Obama terá ainda menos condições para fazer negociações sérias com o Irã as quais, além de necessárias, são promessa do candidato e, depois, do presidente.

O discurso de ontem foi, essencialmente, discurso de capitulação ante os neoconservadores, em relação ao Irã. Não é, de modo algum, passo adiante na agenda que Obama traçara, para manter abertas linhas de negociação com Teerã.
O raciocínio de Cole também vale para a relação entre EUA e Cuba. A promessa de Obama era estender a mão, mas o que vemos é o SourceForge fechando acesso a cubanos, por causa da política externa dos EUA.

2010-01-30

Hermenauta paralisa atividades após 1 milhão de visitas (Web aos sábados)

Após atingir a marca de um milhão de hits, o blog O Hermenauta vai parar por tempo indeterminado.

Não cabe lamentar pelo que não virá, mas sim aplaudir o bloguista tudo o que foi produzido. Parabéns, Hermê! Teu blog era e é uma notável zona autônoma temporária. Aprendi e ri muito com tuas blogações.

PS - Só quem perde com isso é Tio Rei, pois eu, ao contrário do Hermê, nunca teria saco de ler suas tonterias, e agora já não tenho nenhum intermediário inteligente e de estômago forte para digerir o pôr ordem nas suas azedas tolices. Vai sumir do horizonte.

Trabalhe duro (Fotografia)

ViceErica Lust's Blog ← @ericalust

Sereno (Tuitosfera)

Algo que me espanta deliciosamente é a palavra sereno, porque tem alma tranquila como adjetivo, e corpo úmido como substantivo.
@alexsens

Livros são mais antigos do que o copyright

A propriedade de um livro [em comparação com a propriedade de um software] não existe. Não existe algo como um acordo de licenciamento necessário para ler um livro. Livros são regidos por um contrato social que é mais velho do que as editoras, até mesmo mais velho do que a impressão. O inovação recente do copyright em livros reconhece o pacto antigo entre leitores e escritores, e protege seus direitos de possuir seus livros, emprestá-los, dá-los, revendê-los, de lê-los em qualquer nação, em qualquer circunstância.

Mexendo numa foto da Mulher Moranguinho (Fotografia)

Taí uma brincadeira com uma foto da Mulher Moranguinho que encontrei no Desconexión Cubana.

Tirei algumas cores do fundo da foto, e dei uma carregada em alguns tons adicionando o monocromo do canal verde como uma nova camada em modo overlay. Daí mexi no balanço de cores, diminuí um pouco a bunda da moça (sorry!) e troquei alguns vermelhos por pretos.

Não sei de quem é a foto, nem onde foi publicada.

2010-01-29

Mensagens bonitinhas por email (Geek)

Seu titio descobriu o email, te mandou um vídeo incrível e uma mensagem bonitinha em PowerPoint.

Você jogou no lixo direto, sem abrir, pois sabe que é assim que o computador do titio ficou cheio de vírus, spywares e tudo o mais. E você sabe disso porque agora recebe do email do titio mensagens constrangedoras que ele não sabe que foram enviadas do seu computador.

Não esqueça de contar isso pro titio: nunca abra nenhum email que não tenha sido escrito pela pessoa que o enviou. É assim que você mantém seu computador limpo, tendo antivírus ou não.

Aliás, não esqueça de avisar pro titio que o fato do antivírus estar quietinho não quer dizer nada.

Camiseta Wittgenstein/silêncio preta (Uma estampa às sextas)

Após a camiseta Wittgenstein/silêncio branca, eis a camiseta Wittgenstein/silêncio preta, graças ao Rei da França.

O corte do pano é bacana, em formato de T mesmo. A estampa pode ser fundo preto cara branca, como mostrado acima, ou fundo branco e cara preta, como na camiseta original branca.

Os tamanhos disponíveis são P, M, G, GG e XG. O preço é 30 reais. Contato pelo email animot@BAALgmail.com, tirando o "BAAL", deixando só @gmail.com.

PS - o pessoal da filosofia dos arredores costuma pronunciar "Wittgenstein" como Vitguenstain. :)

Cubanos sem acesso ao SourceForge por causa dos EUA (Geek)

No discurso de posse, Obama disse que os EUA estenderiam a mão aos povos que abrissem os punhos.

No entanto, o que se vê é o quadro de sempre: EUA agredindo quem está de mãos estendidas, pedindo há décadas o fim do embargo.

Por ter arquivos hospedados nos EUA, o SourceForge se alinhou ao bloqueio estadunidense a Cuba. Agora cubanos estão impedidos de baixar arquivos de código livre hospedados no SourceForge. Eles já estavam impedidos de contribuir com códigos abertos.

Isso vai contra a proposta da Open Source Initiativa, a qual rejeita a discriminação de pessoas, grupos e áreas de atividade.

Via BarrapuntoAlifa.

PS - O pessoal do SourceForge explicou que tomou a decisão contra a vontade, para não ir em cana. Obrigado @marcospiros!

2010-01-28

Lou Doillon (Celebridades às quintas)


Fotos da modelo Lou Doillon publicadas na revista Purple do outono-inverno de 2008. Via Fluffy Lychees (aqui e aqui).

Lou Doillon é filha da atriz Jane Birkin e do diretor Jacques Doillon.

Photoshop pra Madonna! (Celebridades)

Fãs vazaram na web fotos cruas da Madonna. Aproveitei a oportunidade para mostrar meus serviços com o Photoshop. À esquerda a foto crua, à direita a foto fotoxopada, estilo Cesar Shu.

Empilhadeira Tortura, de Eugênio Neves

Via Arlesophia.

Texas bane ursinho comunista das escolas!

Os alunos das escolas do Texas não encontrarão nas bibliotecas livros como Baby bear, baby bear, what do you see? [Ursinho, ursinho, que que tu vê?], de Bill Martin, Jr.

Motivo: o Conselho Estadual de Educação do Texas baniu das escolas os livros do autor best-seller infantil Bill Martin, Jr, dado que esse teria escrito livros para os adultos que conteriam "críticas muito fortes do capitalismo e do sistema estadunidense".

Mas: Bill Martin, Jr., autor de best-sellers infantis como Brown bear, brown bear, what do you see?, não escreveu tais livros adultos. Quem os escreveu foi Bill Martin, outro autor com o mesmo nome.

Bill Martin, Jr., o autor de livros infantis sobre ursinhos, não o comuna, morreu em 2004.

Bill Martin, professor de filosofia na Universidade DePaul, em Chicago, é autor do livro Ethical marxis: The categorical imperative of liberation. Ele também é conhecido por ter se oposto junto à Universidade DePaul às represálias a Norman Filkenstein, por causa das suas críticas a Israel. Sua proposta filosófica é reler o marxismo à luz da ética kantiana.

A blogosfera está rindo às largas do Texas por causa da série de tonterias do caso. Todos veem, claramente, que o urso é o símbolo da URSS. Todos veem o quanto é importante proteger as crianças da influência maligna do socialismo. Matthew Saroff propõe a devolução do Texas ao México. Ele comenta:
Veja, a expressão "Urso pardo, urso pardo, que que tu vê" simplesmente é muito similar a "o que efetivamente arruinará o sistema imperialista, e o que precisa ser criado, como Mao viu, são economias autossuficientes, não sujeitas à exploração".
A blogosfera também se preocupa com a marginalização de autores progressives nas escolas dos EUA. Se lamenta que autores sejam banidos por educadores por causa das suas orientações e preferências.

Via Richard Adams. Imagem via Cafepress.com.

2010-01-27

Para que serve a OTAN? (História)

Em editorial de 2006, o jornal russo Pravda já dizia que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), aliança militar ocidental, havia sido criada em 1949 sobre a farsa da ameaça soviética.

Farsa, pois a URSS foi destruída na Segunda Guerra Mundial, e não tinha meios de levar adiante o esforço de guerra.

Para se defender da OTAN, em 1955 a URSS organizou o Pacto de Varsóvia, o qual deixou de existir em 1990.

Mas a OTAN está aí até hoje, e se espande para o leste. Os EUA posicionarão mísseis Patriot no território polonês.

A que vem isso? Difícil dizer, pois é difícil ver razão para a existência da OTAN. O Pravda via três motivos para tal organização existir.

Primeiro, é um fato que a Europa poderia se organizar militarmente sem os EUA. Levando isso em conta, a OTAN interessa aos EUA, nação que mantém sua presença militar no território europeu por causa da OTAN.

Segundo, os negócios. A OTAN dá emprego a milhares de burocratas, e envolve negócios bilionários.

Terceiro, a Rússia, nação que não se submete aos interesses dos EUA, nisso diferindo de outras nações europeias, e aproximando-se da relativa independência estratégica da França, país que se afastou da OTAN nos anos 1960s.

2010-01-26

Renda para os haitianos (Justiça às terças)

Muito se fala em ajuda internacional ao Haiti, apesar dos haitianos sofrerem durante dias sem poder vê-la, bebê-la ou comê-la. A pouco mais de um quilômetro do aeroporto de Porto Príncipe, velhos passaram fome, e sofreram com a falta de antibióticos. A ajuda internacional demorou a chegar às pessoas, e o que chega é pouco, apesar do aeroporto de Porto Príncipe não dar conta dos voos com material e pessoal de auxílio humanitário.

Também se fala em reconstruir o Haiti, e aqui é preciso um toque brasileiro, pois é preciso que a reconstrução do Haiti traga renda e prosperidade para a população.

É importante que a ajuda internacional ao Haiti não se limite ao curtíssimo prazo, e aproveite a mórbida oportunidade para dar aos haitianos o que eles precisam: renda.

Um terremoto deixa tudo destruído, o que quer dizer que tudo precisa ser reconstruído. Essa é uma oportunidade para remunerar os haitianos pelo trabalho de reconstrução, sem transformar a coisa toda em uma caminho para o lucro fácil dos especuladores do desastre.

Seria ótimo se houvesse dinheiro para remunerar as pessoas pelo trabalho na reconstrução, e que o FMI transformasse a dívida externa em bolsas para haitianos. Isso elevaria o moral, e ajudaria a resolver o grande problema dos haitianos, a miséria. Essa é a visão de Rubem César, presidente da Viva Rio que está no Haiti.

Rubem César também informa que por lá há um clima de organização, não de violência. Não que a violência não esteja presente no Haiti. É fácil matar por lá, como já diziam os veteranos brasileiros em 2006. Mas há motivos para intranquilidade entre a população haitiana, pois falta água e comida. A ONU demorou quatro dias para começar a distribuir alimentos por helicóptero, apesar do Haiti estar a duas horas de voo dos EUA. Eis uma boa explicação para a afobação do povo. Se duvida, fique quatro dias sem comer nem beber, e daí tentamos conversar, se você estiver calmo.

Por ora, o auxílio internacional prometido, ao menos, chega a R$ 202 per capita. Na verdade, o verdadeiro auxílio por lá é dos haitianos ajudando haitianos. O que se vê no Haiti é ajuda nacional, ao invés de ajuda internacional. Dizem Omar Ribeiro Thomaz e Otávio Calegari Jorge, direto de Porto Príncipe:
Entre quarta-feira [13 de janeiro] e sábado [16 de janeiro], caminhar pelas ruas do centro de Porto Príncipe e de Pétionville era observar o civismo dos haitianos que, muitas vezes, e como nós, sem entender claramente o que havia acontecido, procuravam cuidar dos feridos, resgatar aqueles que ainda estavam vivos sob os escombros, e dispor de seus mortos. O que vimos foi, de um lado, solidariedade, de outro a ausência quase que total e absoluta das forças da ONU e da ajuda internacional.
Para Thomaz e Jorge, os estrangeiros que estão atulhando o aeroporto local com itens de primeira necessidade que não chegam às pessoas simplesmente não entendem a população local, e por isso não usam os meios locais, os únicos em funcionamento até o momento.

Os EUA usaram a pouca capacidade do aeroporto de Porto Princípe para encher o Haiti de soldados, apesar de não haver guerra alguma. Esse mau uso do aeroporto atrasou a ajuda a vários haitianos.

Thomaz e Jorge também nos explicam porque falta alimentos no Haiti: sob pressão do FMI, o Haiti desregulamentou a produção de arroz nos anos 1980s, o que acabou com a produção local de alimentos, e fez o Haiti passar a comprar alimentos estadunidenses, os quais são produzidos com subsídios que não incomodaram o FMI.

A importação de alimentos fez com que os camponeses se aglomerassem em favelas na capital, e morressem nas suas casas precárias no terremoto do dia 12 de janeiro. De modo que os engravatados de Washington e seus capatazes locais têm sua parcela de responsabilidade pelo impacto humano do terremoto.

É preciso ajudar o Haiti. Sejamos marxistas, ora bolas: a cada um de acordo com as necessidades, de cada um de acordo com as capacidades. O resto do mundo pode financiar o Bolsa Família haitiano, e deveria pensar seriamente nisso.

Nada disso está na agenda de discussões, ao menos pelo que eu sei.

Com a capital do país em ruínas, novos tremores de terra (os quais se estenderão por meses), problemas de higiene e aumento dos preços, além da falta de perspectiva pura e simples, os EUA temem um êxodo em massa para outros países do Caribe, e organizaram prontamente um bloqueio naval, além de acomodações na prisão de Guantánamo para os haitianos que fogem do horror pelo mar. Os EUA planejam interceptar navios com emigrantes em alto mar, e repatriá-los para os escombros do Haiti. Isso talvez seja uma maneira de resolver o problema estadunidense com imigrantes, mas certamente não tem nada a ver com o auxílio devido aos haitianos.

Levando em conta o papel dos EUA (com Inglaterra e França) na desconstrução do Haiti, isso se torna duplamente reprovável. Em 1803, os escravos haitianos deram um pau nas tropas de Napoleão, em uma guerra sangrenta que matou 1/3 da população haitiana.

A vitória sobre a potência colonial não tornou os haitianos populares entre os brancos do mundo afora, que praticaram bloqueio econômico para punir a jovem e livre nação. Em 1915 os EUA invadiram o Haiti, e o governaram até 1934, após cobrar o que o país devia ao City Bank. A miséria atual do país é, em larga medida, consequência da ação estadunidense de usar marines pagos pelo contribuinte dos EUA como capangas de banqueiro, assim como a situação atual do Paraguai tem tudo a ver com o vergonhoso papel do Brasil e seus aliados no passado. Seria de se esperar que os EUA reparassem o Haiti pelo que fizeram no passado, valendo o mesmo para Brasil-Paraguai.

Vejam que o Haiti se libertou da Europa em 1803, bem antes do Brasil, em 1822. Na verdade, o Haiti inspirou o Brasil e a América Latina seja na luta pela independência, seja na luta contra a escravidão. Temos essa dívida com os haitianos. O Brasil e o mundo tem um crédito histórico com o Haiti, e seria desejável que os haitianos pudessem sacar esse crédito nesse momento.

Os haitianos entenderam a Revolução Francesa melhor do que os franceses. Em 1789, a França revolucionária verbaliza a Declaração dos Direitos Humanos: todos os homens são iguais. Que momento maravilhoso, não houve ser humano que não se alegrasse. Os haitianos também se alegraram. Mas, haitianos são seres humanos? Para os franceses não. Quando os habitantes da então colônia francesa de Saint-Domingue, hoje Haiti, pediram à metrópole para desfrutar dos seus direitos, receberam repressão.

Bill Clinton fala em reconstrução do Haiti, e se pensa em recuperar o setor industrial-exportador. No entanto, é claro que o Haiti não precisa ser um maquilador de produtos produzidos em outros países que não serão consumidos pelos haitianos. Isso é exploração, não ajuda, e dá no horror que se vê no México. Os haitianos precisam de bolsas (não empréstimos) que lhes deem poder de compra, fazendo a economia local se desenvolver, como estamos vendo no Brasil.

Só africanos têm coragem de se revoltar contra a máfia, na Itália (Igualdade e liberdade)

A Itália deixa os imigrantes abaixo da lei, o que os torna presas da máfia. Em Rosarno, na Calábria, as recentes revoltas de imigrantes são por acesso aos direitos básicos, contra a exploração do seu trabalho pela Camorra.

Via artigo de Roberto Saviano no New York Times. O autor salienta o esquecimento pelos italianos de hoje do sofrimento dos emigrantes italianos nos EUA, nas mãos da máfia, e também o esquecimento dos heróis africanos da história romana.

Reparações aos índios: New York Times pede urgência, nos EUA (Liberdade e igualdade)

Em editorial, o jornal New York Times pediu urgência na votação no Congresso das reparações bilionárias aos índios estadunidenses.

As reparações chegam a US$ 3,4 bilhões, valor que o jornal chama de pechincha, dado o quanto a união retirou de animais, gás e petróleo de terras indígenas, por mais de um século.

Para o jornal, pagar as reparações aos índios é apenas dar a eles o que lhes é devido.

(Eis um jornal à altura da discussão de um Programa Nacional de Direitos Humanos.)

No México, twittativistas expulsos de discussões "abertas" do ACTA (Justiça)

Ativistas que tuitavam ao vivo a discussão "aberta" do "Acordo Comercial Anticontrafação" (ACTA, na sigla em inglês) foram intimidados e expulsos do local da discussão, no México.


Isso é grave, pois o "acordo" pretende dar aos governos o poder de espionar a intimidade dos cidadãos, e desconectar a Internet de domicílios onde houver suspeita de pirataria. Tudo isso é inaceitável, além de simplesmente inconstitucional no mundo civilizado, e deve ser discutido abertamente.

A tentativa de acabar com direitos e prerrogativas básicas dos cidadãos através de acordos internacionais é chamada de lavagem de leis, em analogia com a lavagem de dinheiro feita por contrabandistas, traficantes, mafiosos e outros criminosos graúdos. O objetivo básico desse tipo de picaretagem política é transformar em fato o que não é direito. No caso do ACTA, a bandidagem política é sustentada por grandes gravadoras e grandes estúdios de cinema.

Dada a gravidade e profundidade das ameaças às liberdades sintetizadas no ACTA e nas políticas que o sustentariam, em dezembro de 2009 ativistas espanhois publicaram um manifesto pelos direitos fundamentais na Internet:
1. A proteção judicial está acima do copyright.

2. Somente juízes podem suspender direitos fundamentais em circunstâncias muito específicas e bem embasadas.

3. Legislação que dá ao executivo o poder de fechar sites sem consultar o judiciário é ruim para os negócios.

4. Fechamento de sites sem ordem judicial inibe a criatividade, a qual nada tem a ver com grandes gravadoras.

5. Autores têm o direito de viver da sua obra, mas o modelo de controle de cópias é obsoleto.

6. A indústria cultural deve buscar novas práticas sociais.

7. A internet deve ser livre e não pode sofrer a interferência de grupos que querem impor seu modelo obsoleto de negócios.

8. O governo não pode se curvar ao interesse de grupos econômicos baseados em um modelo de negócios obsoleto.

9. Uma reforma dos direitos de propriedade intelectual deve promover uma sociedade de conhecimento e inibir abusos de grupos de copyright.

10. Em uma democracia, mudanças devem ser precedidas de debates públicos com a participação de todas as partes atingidas.

2010-01-25

Rio Grande do Sul, top em AIDS (RS às segundas)

O estado do Rio Grande do Sul acumula diversos recordes negativos com respeito à AIDS:
  • Dentre as capitais brasileiras, Porto Alegre tem o maior número de casos por habitante
  • 15 municípios gaúchos estão no topo da lista de casos de AIDS
  • Não há campanha de prevenção da AIDS dirigida às populações vulneráveis, incluindo usuários de drogas
Esse quadro levou o Sindicado Médico do Rio Grande do Sul (SIMERS) a denunciar em entrevista coletiva o caos no sistema de tratamento e prevenção da AIDS no estado. A denúncia do SIMERS envolve:
[...] gestão de verbas, inconsistência de registros, falta de medicamentos e exames, inexistência de controles e políticas de prevenção; fatos que ocasionam gravíssimos problemas à saúde pública e à população.
Além dessas denúncias, o SIMERS pede o enquadramento do Secretário Estadual de Saúde, Osmar Terra, no artigo 132 do Código Penal, por "colocar a vida de pessoas em risco".

Ou seja, é mais um caso de déficit de manutenção no governo Yeda. Como ocorreu no caso da ponte, a vida das pessoas está em risco.

Das vinte cidades com maior incidência de AIDS no Brasil, contando número de casos por 100 mil habitantes, quinze estão no RS:
1. Porto Alegre (RS): 111,5
2. Camboriu (SC): 91,3
3. Canoas (RS): 83,0
4. Itajaí (SC): 81,2
5. São Leopoldo (RS): 72,9
6. Alvorada (RS): 72,8
7. Sapucaia do Sul (RS): 70,3
8. Viamão (RS): 68,5
9. Balneário Camboriu (SC): 67,9
10. Cruz Alta (RS): 64,9
11. Rio Grande (RS): 59,4
12. Florianópolis (SC): 57,4
13. Esteio (RS): 56,7
14. Cachoeirinha (RS): 54,0
15. Guaíba (RS): 53,0
16. Pelotas (RS): 51,9
17. Gravataí (RS) 49,9
18. Camaquã (RS): 47,7
19. Criciúma (SC): 47,1
20. Novo Hamburgo (RS): 44,6
Para alertar a população sobre o caos na gestão da saúde e para os riscos, o Grupo Somos espalhou outdoors em Porto Alegre com os recordes lamentáveis dos gaúchos. Também lançou o blog Rio Grande do Sul 1º Lugar em Tudo. O grupo revela que, após a coletiva do SIMERS, novas denúncias surgiram, incluindo exames que não são feitos no prazo, e precisam ser refeitos, o que traz transtornos e despesas aos moradores do interior que se deslocam a Porto Alegre para fazê-los. Os exames não estão sendo feitos por falta de kits para exame da carga viral. Ou seja, é o déficit de manutenção típico da perigosa administração Yeda Crusius.

2010-01-24

Israel aumenta poder nuclear com submarinos alemães

Israel pretende posicionar um submarino com a capacidade de lançar mísseis com ogivas nucleares no Golfo Pérsico.

Durante o governo de Gerhard Schroeder, a Alemanha doou para Israel três submarinos Dolphin (foto), os quais estão entre os mais avançados do mundo, e tem a capacidade de disparar mísseis Harpoon (dos EUA) com ogivas nucleares.

Provavelmente, os novos submarinos não se limitarão ao extremo oriental do Mediterrâneo, e que Israel pretende estacionar um desses submarinos no Golfo Pérsico. De acordo com o site Islâmi Davet, com a entrega dos novos submarinos Dolphin a Israel, em 2011-12, Israel se manterá presente no Golfo Pérsico.

Trata-se de um ato de proliferação nuclear muito mais concreto do que qualquer ato do Irã até o momento. Seria de se esperar que o ocidente manifestasse seu repúdio, mas só se encontra silêncio e omissão da informação, e do seu impacto.

Além dos três submarinos Dolphin doados pela Alemanha, Israel possui mais dois, e pretende adquirir mais um. Esse pode ter sido um dos temas discutidos na reunião dos governos alemão e israelense, na última segunda-feira.

Usualmente a esquadra israelense fica confinada no extremo oriental do mar Mediterrâneo. No entanto, no dia três de julho de 2009 um submarino Dolphin e duas outras naves da marinha de Israel cruzaram o Canal de Suez e entraram no Mar Vermelho (mapa), em exercício conjunto com as forças militares do Egito.

A Alemanha é o segundo maior doador de auxílio militar e econômico para Israel, perdendo apenas para os EUA.

O poderio nuclear de Israel vem preocupando a Agência Internacional de Energia Internacional Atômica (IAEA, na sigla em inglês). No dia 18 de setembro de 2009, a agência pediu que o programa nuclear israelense fosse colocado sob supervisão internacional, no comunicado "Israeli nuclear capabilities". A IAEA alega que a proliferação de armas nucleares promovida por Israel ameaça a segurança e a estabilidade do Oriente Médio.

Além de fazer proliferar armas nucleares no Oriente Médio, há evidências de que Israel está se preparando para um novo ataque aos seus vizinhos, ou às populações das terras que invadiu. O exército dos EUA está dobrando o valor do "equipamento militar de emergência" estocado em solo israelense, de US$ 400 milhões para US$ 800 milhões. Israel pode usar esse material, se houver uma "emergência", como por exemplo a falta de bombas após ter usado todas as suas atacando países vizinhos ou civis em áreas invadidas.

Caster Semenya é homem ou mulher? (Domingo cabeça)

@ velocista sul-african@ Mokgadi Caster Semenya é homem ou mulher?

Essa é uma pergunta ruim, pois pressupõe a dicotomia entre tipos sexuais a partir da função reprodutora, e o exemplo de Caster Semenya contesta essa dicotomia.

Em 2009 no Campeonato Mundial de Atletismo realizado em Berlim, Semenya conquistou a medalha de ouro nos 800 metros rasos.

Após a vitória, Caster teve sua feminilidade contestada e teve de se submeter a testes de DNA. Os exames comprovaram que a atleta sul-africana é portadora de uma deficiência cromossomática que lhe confere características masculinas e femininas. Semenya não tem ovários nem útero, mas possui testículos ocultos internamente (que produzem testosterona acima do normal para uma mulher), embora os genitais externos sejam femininos.
Caster Semenya não tem útero, e tem testículos. Essas são características masculinas. Mas ela não é homem, pois teria uma "deficiência". Mas, como pode ser deficiência uma característica que @ faz vencer? Vamos comparar: Michael Phelps tem uma biologia anormal que o auxilia nas piscinas. Isso quer dizer que ele tem uma deficiência?

Nos dois casos não há deficiência alguma. Há eficiência.

Mas, então, o que Caster Semenya é? Homem ou mulher?

De novo, a pergunta está viciada. É preciso classificar de outra maneira. Para classificar melhor, o primeiro passo é não transformar em doença ou deficiência o que é uma característica de uma minoria. Eis porque é problemático dizer que Caster Semenya tem uma "desordem de desenvolvimento sexual", pois não há desordem alguma. El@ é uma pessoa em boa ordem, ainda que fora do normal.

As pessoas em boa ordem que tem uma fisiologia como a de Caster Semenya preferem ser chamadas de intersexuais. Elas estão entre um e outro sexo da classificação padrão.

Voltando ao início, a questão do gênero de Caster Semenya não se resolve apelando às classificações mais usuais. Isso nos dá uma oportunidade de olhá-las mais de perto e revisá-las. Além de uma oportunidade de pensar mais a fundo sobre o papel das classificações tradicionais nos esportes.

Os intersexuais tem uma organização que luta pelos direitos humanos dessas pessoas. A ativista Andrea James sugere o livro Apartheid of Sex, de Martine Rottblath. Sugiro o livro Ontologia Histórica, de Ian Hacking, para os fundamentos da discussão sobre classificações de pessoas.

Imagem via Wikipedia.

Depoimento de Blair atrai mais de 3.000 pessoas (Mundo aos domingos)


Na sexta-feira, 29 de janeiro de 2009, o ex-Primeiro Ministro inglês Tony Blair fará depoimento em uma comissão de inquérito, com o objetivo de apresentar evidências que sustentem sua decisão de levar a Inglaterra a invadir o Iraque.

Várias pessoas pediram para assistir a audiência, e 3.041 pedidos foram considerados válidos, entre os quais os pedidos de famílias de soldados mortos no Iraque.

Info do Guardian, charge do Latuff.

2010-01-23

Os Discípulos, por James Mollison (Foto aos sábados)


Durante três anos, o fotógrafo James Mollison fotografou fãs no lado de fora de shows, fascinado pelas tribos, e pelo modo como os fãs emulam seus ídolos. Ele diz:
À medida que eu fotografava o projeto, comecei a ver como os shows se tornaram eventos para as pessoas se reunirem com suas 'famílias" postiças, uma chance de reviver suas juventudes e uma tentativa de fazer parte de uma cena que aconteceu antes que elas nascessem.
Via Nerve.

2010-01-22

Camiseta Russell/1+1=2 (Uma camiseta às sextas)


Eis a camiseta em homenagem ao filósofo e pacifista Bertrand Russell.

A estampa alude à demonstração que 1+1=2 em Principia Mathematica, obra a quatro mãos de Russell e Alfred Whitehead.

O preço baixou: a camiseta custa 20 reais, mais frete. Tamanhos disponíveis P, M, G, GG e XG. Também disponível baby-look em tamanho único. Encomenda pelo email animot@g m a i l . com (Gmail). As imagens são meramente ilustrativas, o preço pode vir a mudar.

2010-01-21

Lula e o batom (Brasil às quintas)

40% das brasileiras possuem um batom. Mas esse número aumentará drasticamente com a inclusão dos favelados no mercado consumidor.

A indústria de cosméticos é uma das maiores beneficiadas com a inclusão de 20 milhões de brasileiros no mercado consumidor nos últimos seis anos. Isso porque as famílias que emergiram da pobreza em geral têm a renda baseada no trabalho das mulheres, e essas têm o costume de gastar um pouco do seu ganho em cosméticos.

O Brasil tem o terceiro maior mercado de cosméticos do mundo, atrás dos EUA e do Japão. Em 2008, a Avon vendeu US$ 1,67 bilhões no Brasil, e a Natura vendeu US$ 4,9 bilhões.

2010-01-16

Dave Aharonian (Foto aos sábados)

Dave Aharonian é um fotógrafo de Victoria, na Colúmbia Britânica, no Canadá. Eis um pouco do seu trabalho sobre paisagens, e alguns dos seus nus.

A foto acima se chama Cloud Serpent, Nootka Island [Nuvem Serpente, Ilha Nootka], e foi tirada na Ilha Nootka, no Canadá, a qual é uma reserva florestal onde se percorre trilhas e se observa tempestades. É o tipo de foto que me faz ter saudade do filtro polarizador da minha velha Pentax K-1000, o qual escurece o céu por detrás das nuvens e trata das superfícies reflexivas, como a água na praia acima.

Dave Aharonian é um grande fotógrafo de nus em exteriores e interiores. Acima, a foto Candace, in the stream [Candace, no regato]. Abaixo, Stephanie, Reach, a foto que Ane Shu mais amou:

Conheci o trabalho de Dave Aharonian através do blog Erotica.

2010-01-15

Existe um x tal que x quineia (Uma camiseta às sextas)


Depois da camiseta Wittgenstein/silêncio, eis a camiseta sobre Quine, homenageando sua proposta de eliminar os termos singulares da lógica. Traz uma imagem de Quine em preto sob o texto x quine(x) em vermelho.

A ideia dessa série de camisetas é brincar com coisas da filosofia que poucos sabem, criando certa cumplicidade entre quem a veste e quem a entende, como se fosse uma private joke. O objetivo é a diversão filogeek, nada mais. Tentarei bolar ao menos uma estampa nova por semana, e a publicarei aqui no aNImOt na sexta-feira.

A camiseta é na cor branca, nos tamanhos P, M, G, GG e XG. Tem também baby-look tamanho único. A estampa é super bem-feita, em um processo bem mais bacana do que silk-screen. O preço é 23 reais, e dá para comprar pelo email animot//gmail.com. Logo a disponibilizarei no QueBarato.com e no eBay. A imagem acima é meramente ilustrativa.

2010-01-13

Liberdade de expressão combina com conselhos reguladores

Coisa do tuiter: "Liberdade de expressão, liberdades individuais, não combinam com conselhos regulamentadores."

Será? Tenho minhas dúvidas. 

O fundamento (liberal, não socialista ou comunista) da liberdade de expressão é a crença que a diversidade de opiniões é um valor em si, visto que uma pessoa exposta a uma maior diversidade de opiniões e modos de vida terá mais e melhores chances de desenvolver sua individualidade, ou de realizar-se plenamente como ser humano, caso queira. 

Digamos, só por hipótese, que exista um país onde milhões de pessoas têm apenas uns poucos canais de TV e umas poucas rádios para formar-se e se informar, e que essas poucas rádios e TV estejam nas mãos de uns poucos proprietários, que monopolizam a produção de programas, e compram programas de poucas fontes. 

Nesse caso, um conselho regulador que exigisse mais diversidade de fontes e produtores seria favorável à liberdade de expressão. 

Pena que este país hipotético não tem nada a ver com o Brasil, não é mesmo?

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Camiseta Wittgenstein/silêncio

Eis uma camiseta para você presentear seus amigos wittgensteinianos. Eles ficarão tão contentes que não irão nem poder agradecer.

A camiseta é baseada no famoso aforismo final do Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein: "Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar".

Os interessados em comprar a camiseta entrem em contato pelo email animot(a|r|r|o|b|a)gmail.com. A imagem acima é meramente ilustrativa.

Alguns links

Começo o dia indicando alguns links.

Medo da verdade - No Jornal do Brasil, Hildegard Angel mostra sua repugnância com a distorção dos fatos, pois está se mostrando as vítimas da truculência oficial como algozes, e os algozes estão com medo da verdade.

Não dá para entender porque a direita brasileira é assim tão medrosa. Em outros países que passaram por ditaduras houveram comissões da verdade, incluindo Espanha, Grécia, Portugal, Chile, Uruguai, Argentina e Bolívia. O que há de tão especial no sentimento de medo dos direitistas brasileiros, para que seja assim tão intocável. Por que não criam coragem para encarar os fatos?

Como diz Hildegard, "QUE MEDO é esse de se revelar a Verdade? Medo de não poderem mais olhar para seus próprios filhos? Ou medo de não poderem mais se olhar no espelho?…"

É triste ver a covardia se espichando pelas décadas dessa maneira. Primeiro a covardia da truculência ilegal. Agora a covardia de encarar a verdade.

Terremoto haitiano no Twitter - o Estadão traz matéria sobre o que alguns haitianos tuitaram durante e após o forte tremor. Port-au-Prince está destruída.

A imoralidade dos auxílios a bancos - Uma década depois, o "Primeiro Mundo" vive os males do Proer, e só dá para dizer que é imoral usar o dinheiro do contribuinte para sanar bancos em dificuldades, assim como seria imoral ter usado o dinheiro do contribuinte para sanar a Enron. A imoralidade está em dar o dinheiro do contribuinte a quem menos precisa, o que é a mais básica das injustiças (vale a pela ler Rawls e Arnsperger e van Parijs sobre isso), e também em recompensar quem mais estimulou um sistema baseado na ganância que se autodestruiu.

Google pode sair da China - Por causa de ataques a Gmails de dissidentes. Isso seria admirável, pois iria contra a hipocrisia típica do mundo dos negócios e diplomático dos EUA, o qual ameaça a América Latina por conversar sobre negócios bilionários com o Irã, mas faz negócios trilionários com a China, nação que já é uma potência nuclear e trucida dissidentes tal qual o Irã.

No blog oficial, o Google diz que iniciou o google.cn (Google chinês) em 2006 porque acreditava que isso levaria mais informação a uma população que sofre com uma censura brutal. Esse objetivo levou o Google a concordar por algum tempo em censurar alguns resultados de pesquisa, ainda que a contragosto. Agora, o Google não quer mais censurar resultado de pesquisa algum, e está discutindo o assunto com as autoridades chinesas. O Jornal do Comércio traz uma versão em português.

Novas espécies descobertas - Pesquisa na Mata Atlântica descobre cerca de mil novas espécies de insetos, e apresenta explicações para suas diferenças em relação a outras espécies de áreas vizinhas.

2010-01-12

Lembra

O quadro acima é da série de pinturas do pintor colombiano Fernando Botero sobre a tortura em Abu Ghraib. Via Kasama. Este trabalho de Botero é encontrável em um livro de David Ebony.

O que aconteceu na prisão de Abu Ghraib precisa ser lembrado. O que aconteceu no Brasil também.

Leia mais sobre este trabalho de Botero: The Nation (artigo de Arthur C. Danto), CommonDreams.org, Slate, Ricochete, SFGate, The Washington Post, Estadão.

Atualizado 17h03

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Aborto: o direito de escolher

O mapa das leis do aborto pelo mundo afora mostra que o Brasil está ao lado dos países mais atrasados da África e da América Latina. Os países do assim chamado "Primeiro Mundo" permitem o aborto, caso a mulher assim decida.

Eu acho que o tal "Primeiro Mundo" está certo. Quem tem o corpo e a mente decide, os outros respeitam.

Levando isso em conta, é lamentável que o assunto saia da pauta do Congresso por mero casuísmo eleitoral. Isso é colocar os próprios interesses eleitoreiros acima dos direitos das cidadãs e cidadãos.

Com informações de @tuliovianna. Arte baseada em Green Change.

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O nada do Gênesis 1 nadificou-se como erro de tradução

Para a teóloga e especialista em hebraico Ellen Van Wolde (foto), da Universidade Radboud, na Holanda, "Agora é insustentável a visão tradicional de Deus como o criador" (Telegraph.co.uk). Isso porque essa visão estaria apoiada em um erro de tradução milenar, o qual levou filósofos como Agostinho e Tomás a supor que o Gênesis 1 trataria da criação do universo a partir do nada.

O estudo de Van Wolde foi publicado em uma edição de 2009 do Journal for the Study of the Old Testament [Revista de Estudo do Velho Testamento]:

O exame do verbo ברא [bara] no Gênesis 1 leva à conclusão que o verbo ברא em Gênesis 1 não significa "criar", mas "separar". Essa hipótese é subsequentemente testada contra evidência externa da literatura cognata na Mesopotâmia. Nesses relatos mesopotâmicos da criação, as linhas de abertura frequentemente descrevem os atos (divinos) de separação do céu e da terra. O verbo sumérico bad e o verbo acadiano parasu empregados nesses textos designam claramente "separar". Evidência textual da Bíblia hebraica também parece suportar essa hipótese. Por exemplo, o fato que na Bíblia hebraica o substantivo "criador" nunca é expressado com o particípio de ברא, mas sempre com o particípio de outros verbos. Assim, baseado em evidência linguística e textual interna e externa e em uma argumentação controlada, é altamente plausível e muito provável que o tipo de ação expressada pelo verbo ברא em Gênesis 1 é de um caráter espacial e físico muito concreto, e pode ser apresentado como "separar".

O artigo de Van Wolde foi resenhado por Jones Mendonça, em 15 de outubro de 2009, no blog Numinosum Teologia:

[...] a discussão gira em torno de novas possibilidades para a tradução do verbo hebraico bara (בָּרָא). Tradicionalmente esse verbo tem sido interpretado como dando a ideia de uma “criação do nada (ex nihilo)”. A autora faz comparações entre o capítulo 1 de Gênesis e o famoso e extremamente antigo mito sumeriano da criação. Este último relato não fala de uma criação a partir do nada, mas narra a organização do mundo em três níveis: céu, terra e mundo inferior, separados pela ação de uma das inúmeras divindades existentes. Para a autora do artigo, a Bíblia seguiria o mesmo padrão do relato mesopotâmico, mas foi interpretada de forma diferente ao longo da história do pensamento judaico cristão.

Na página 10 a autora chama atenção para os versículo 21 do primeiro capítulo do Gênesis. Para ela, esse versículo descreveria os tipos de animais que habitam um mundo existente em três níveis: mundo inferior (monstros marinhos), mundo intermediário (répteis) e mundo superior (aves). O texto teria a intenção de narrar a separação, e não a criação a partir do nada, dos animais que habitam esses três níveis.

Mendonça também mostra que o estudo de Van Wolde é importante para quem estuda filosofia medieval, pois o resultado de Van Wolde põe em xeque a ideia de criação a partir do nada, a qual não era questionada por filósofos medievais como Agostinho e Tomás. Ou seja, uma parte importante da teologia cristã estaria baseada em um erro de tradução.

O jornal Telegraph.co.uk de 8 de outubro de 2009 traz mais informações. Para Van Wolde, o tema do início do Gênesis não é o início dos tempos, mas o início de uma narração. O livro está contando a história de um personagem, Deus, o qual está separando céu e terra pré-existentes, de modo a torná-los habitáveis. Esse personagem criou os animais, incluindo humanos, mas não criou céu e terra. Ou, ao menos, não é disso que o livro se ocupa.

Ellen Van Wolde já trabalhou com o novelista e semioticista Umberto Eco, e é autora dos livros Words Become Worlds (1994), Narrative Syntax and the Hebrew Bible (1997) e Job 28.

A foto vem do blog Punto Franco.

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2010-01-11

Tortura e verdade do ponto de vista moral

Há filhos que querem saber o que se fez com seus pais, desaparecidos pela ditadura. Há esposos e esposas querendo saber o que se fez com seus cônjuges. E há vítimas de tortura e estupro que querem que se investigue a verdade, estabelecendo os nomes e as responsabilidades de quem cometeu tais crimes. 

E não há nada que uma pessoa que aceita o que é certo de acordo com a moralidade possa fazer ou dizer contra tais demandas. 

Alguns rejeitam tais demandas apoiando-se na utilidade. Dizem esses: "A que vem tal olhar para o passado? Isso não é útil."

Mas não há como rejeitar o que é certo do ponto de vista moral por causa da utilidade. A utilidade de uma prática não a torna moralmente correta. Pode ser útil para mim roubar meu vizinho para comprar eletrodomésticos sem precisar trabalhar, mas isso não torna o roubo um ato bom. Do mesmo modo, a suposta utilidade do silêncio sobre crimes não é razão para negar a verdade aos que a buscam. 

Você chamaria a vítima de um roubo de revanchista, por buscar a verdade sobre o roubo? Eu não chamaria. Mas o jornal O Globo chama de "revanchistas" às pessoas que querem a verdade sobre abusos da ditadura. No caso do roubado e no caso do torturado, tal vocabulário é apenas duplicação da injustiça, pois a injustiça do roubo/tortura é somada à injustiça da privação do direito de buscar as formas impessoais de justiça que se pratica em sociedades como a nossa, e outras de "Primeiro Mundo". 

Isso do ponto de vista moral. Do ponto de vista legal, é provável que os crimes dos torturadores já tenham prescrito

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2010-01-10

Labirinto de Paixões, de Pedro Almodóvar



É uma pena que o filme Labirinto de Paixões, o segundo longa de Pedro Almodóvar, de 1982, não esteja disponível em DVD no Brasil.

O filme é uma comédia maluca sobre a ninfomaníaca Sexilia (Cecilia Roth), filha de um ginecologista especializado em reprodução assexuada (Fernando Vivanco), o gay e terrorista islâmico Sadec (Antonio Banderas) e Riza Niro (Imanol Arias), o filho do imperador de Tira (país fictício do Oriente Médio) que está em Madri em busca de aventuras gays. São unidos pelo "mais puro dos sentimentos: o primeiro amor, aquele que fica impresso para sempre na alma dos apaixonados" (Webcine).

O filme faz parte da Movida Madrileña, movimento contracultural marcado pela transgressão sexual e cultural, entre o fim do período de repressão da ditadura Franco em 1975 e a notícia da AIDS.

No vídeo acima, o personagem Fábio diz, logo no início:
Sin dinero nena, no coche, no chica, no vicio, no tate, no rímel. Estoy histérica!

(Sem grana menina, sem carro, sem mulher, sem vício, sem haxixe, sem rímel. Tô histérica!)
É uma das frases mais memoráveis da história do cinema.

Atualizado 2010-01-11

2010-01-08

Boris Casoy, o terrorista



Boris Casoy, atualmente apresentador da TV Band, participou da organização terrorista Comando de Caça aos Comunistas (CCC), segundo reportagem da revista O Cruzeiro escavada pelo cloaqueiro. O CCC era uma organização de extrema-direita que ficou famosa pelo ataque à peça Roda Viva, de Chico Buarque, no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, no dia 18 de julho de 1968. De acordo com o livro Radiografia do Terrorismo no Brasil, de Flávio Deckes:
A cultura foi o alvo preferido das organizações [de direita] CCC, MAC, GAC e FUR no final de 1968. São Paulo, em julho, era palco de acontecimentos que apresentariam um balanço violento ao final do ano. Nesse mês, a 18, o teatro Galpão era invadido e depredado pelo CCC [Comando de Caça aos Comunistas], cujos militantes espancaram atores e o público que assistia Roda Viva, de Chico Buarque de Holanda. A atriz Marília Pera reconheceu duas pessoas entre os agressores: Claudinei Brás e Edgar, seu primo, mas ambos desapareciam como por encanto depois. No mesmo mês, se dava o atentado ao teatro Maison de France, no Rio, onde se representava O Burguês Fidalgo, de Molière, um equívoco provocado pelo clássico francês nas cabeças de terroristas ignorantes. Dia 22, os jornalistas recebiam a próxima agressão, com a explosão, pelo CCC, de bomba na ABI - Associação Brasileira de Imprensa - ainda na capital carioca. Em agosto, mais dois teatros sofrem ataques de bomba: a 2 o teatro Opinião, e três dias depois o teatro Glaucio Gil, com Os Inconfidentes em cartaz. Em setembro, os terroristas deixavam uma advertência no teatro João Caetano (RJ), após jogarem bomba que não explodiu (tinha um número e pertencia ao Ministério da Aeronáutica). Em cartaz, Feira Paulista de Opinião.
O cloaqueiro desenterrou uma reportagem da revista O Cruzeiro de 9 de novembro de 1968 que apresenta Boris Casoy como membro do CCC. A reportagem diz que Boris Casoy:
Anda armado mas, segundo os colegas, é incapaz de atirar em alguem.
Andar armado, participar de grupo de extrema-direita que agride artistas... Isso é uma vergonha!

Fiz uma versão em PDF da reportagem da revista O Cruzeiro encontrada pelo cloaqueiro, para facilitar a leitura.

2010-01-07

Déficit de manutenção?

O fotógrafo Jefferson Bernardes, quem viu de perto o desastre na ponte da RSC-287, escreve:

É fundamental não perder a perspectiva. A grande história está aqui: na minha opinião não é necessariamente a tempestade, pois ela já aconteceu. A grande história é sobre como e quanto mais bem preparados somos como nação e como nosso governo está para lidar com as conseqüências desta calamidade

De acordo com o Daer, a última vistoria da ponte sobre o rio Jacuí ocorreu em 2007, mas os documentos que a detalham não foram encontrados. Segundo o jornal Correio do Povo, o qual consultou o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA), Luiz Alcides Capoani, uma ponte como a que caiu precisa de manutenção mensal. Usuários da RSC-287 relatam que a estrada está em condições precárias em vários trechos, embora esteja boa perto do pedágio de R$ 6,00. (Não custa explicitar: estrada em más condições é indício de má conservação da estrutura rodoviária como um todo, incluindo pontes.)

Acima, grafite sobre o belo e informativo trabalho fotográfico de Jefferson Bernardes. Veja também os trabalhos de Sátiro Hupper e Kayser.

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Yeda rejeita repasse de R$ 500 mil/ano da TV Brasil

Yeda era mediocre, agora é pequena: rejeitou proposta de parceria da TVE com a TV Brasil, a qual incluia o repasse de R$ 500 mil/ano para a produção local de conteúdo para a grade de programação nacional. Além disso, a parceria permitiria que a TVE utilizasse a tecnologia da TV Brasil para migrar para o sistema digital. 

Ou seja, perdeu o público que foi privado da programação, e perderam também os trabalhadores da comunicação, pois o repasse de dinheiro da TV Brasil para a TVE produzir conteúdo geraria empregos no RS. 

Yeda renovou contrato com a TV Cultura, pagando cerca de R$ 20 mil/mês pelo conteúdo (cerca de 3 vezes o gasto com puffs e badulaques pra casinha). A parceria com a TV Brasil tornaria esse  pequeno gasto menos necessário, visto que a TV Brasil já paga pela retransmissão de parte do conteúdo da TV Cultura. 

Não há o que explique a decisão de Yeda, quem se mostra pequenininha como governadora. A TV Educativa de MG aceitou a parceria com a TV Brasil. 

A notícia é da Folha de São Paulo, e repercutiu no Diário Gauche, Portal Imprensa e Pimenta com Limão. Alguém encontrou a notícia em algum jornal local?

Imagem via Blog do Kayser

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2010-01-06

Com as devidas inspeções, a ponte estaria de pé

De acordo com o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA), Luiz Alcides Capoani, a ponte sobre o rio Jacuí no Km 191 da RSC-287 não teria caído, "caso inspeções fossem feitas regularmente na ponte sobre o Rio Jacuí". 

Ou seja, a ponte que vai custar R$ 10 milhões para ser reconstruída estaria de pé, caso o governo estadual tivesse feito os devidos esforços para conservá-la. 

Levando em conta o que diz o presidente do CREA, é preciso dizer com clareza: a ponte não caiu por causa da chuva. A ponte caiu por negligência das autoridades responsáveis pela sua manutenção, visto que as devidas inspeções não foram realizadas. Com essas inspeções a ponte estaria de pé. O presidente do CREA indica que o problema não está no projeto da ponte, mas sim no seu cuidado. 

As autoridades estaduais têm feito os devidos esforços para manter a RSC-287 em dia? A confiar no presidente do CREA, certamente não. Além disso, Alberto Porem Jr. fez uma pesquisa para o blog do Nassif, mostrando que em 2009 a recuperação da estrada foi paralizada, e também substituída por operação tapa-buracos. Em 11 de novembro passado ainda não havia data anunciada para o início da recuperação definitiva. 

Ante esse quadro, tudo indica (1) que o governo estadual tem responsabilidade a ser investigada nesse caso, e (2) que é de mau gosto falar que Yeda se mobilizou na hora, visto que uma autoridade como o presidente do CREA indica que providências passadas teriam evitado a tragédia. 

Além disso, é importante (3) fazer um levantamento do que mais não estaria sendo devidamente cuidado pelo governo estadual, pois isso evitaria mais mortes e sofrimentos. No momento há cinco desaparecidos pela queda da ponte na manhã de hoje. 

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Yeda, ACM, e o terreno da ex-Febem

ACM, quando Prefeito biônico de Salvador, entregou à especulação imobiliária 25 milhões de metros quadrados de terras, ou seja, quase 10% da superfície de Salvador, através da Lei da Reforma Urbana, promulgada às vésperas do natal de 1968. Com isso, o ACM liquidou os estoques de terras públicas da capital baiana, inviabilizando qualquer possibilidade de a cidade criar planos de habitação. As terras foram vendidas ao preço de CR$ 2,35 o metro quadrado. Terras preciosas situadas no núcleo de expansão da cidade, entre a BR 324 e a orla, sobretudo aquelas que se encontravam onde viria a ser a Avenida Paralela e que se mantinham imunes aos especuladores, por força das clausulas de aforamento, foram para eles transferidas da noite para o dia.

A governadora Yeda Crusius sempre ficará atrás de Antônio Carlos Magalhães, pois ACM ao menos era um político capaz e articulado, ainda que usasse sua capacidade e sua articulação para seus fins enviesados. Mas o caso do terrenão da Fase (foto acima) nas vizinhanças da Av. Padre Cacique que será vendido para alguma construtora de imóveis é aceêmico ao menos no quesito da transferência de terras públicas preciosas para privados. Talvez seja aceêmico também no quesito cruzeiros/m². 

A que vem esse negócio nessa hora? É desconsiderar o interesse público vender um patrimônio desses às pressas, sem maiores esclarecimentos ou debates transparentes, profundos e multilaterais. 

O governo do estado diz, pelo secretário Fernando Schiller, em entrevista realizada segunda-feira, que (1) a discussão sobre a descentralização da Fase (ex-Febem) tem ao menos 15 anos, e que é preciso fazer com que os menores fiquem mais próximos das suas famílias, muitas das quais são de cidades do interior do estado. Isso justificaria, segundo o governo Yeda, (2) a permuta do terreno da Fase em Porto Alegre por áreas públicas ou privadas em cidades do interior.

Mas não tal há justificação. Se o governo quer terrenos no interior do estado, isso não exige a venda de terreno na capital. São duas coisas muito diferentes, e não há necessidade alguma de vincular a aquisição de terrenos no interior à venda do terreno na capital. 

Ou seja, a justificativa do governo Yeda para vender o terreno da Fase em Porto Alegre não cola. 

Há um terceiro elemento, ainda da entrevista do secretário de Yeda:

Apresentador André Machado: Para entender como funciona, essa área extremamente valorizada da Padre Cacique, especialmente agora com a Copa do Mundo chegando e o Beira Rio vai ser o palco dessa área, uma empresa, possivelmente uma construtora, tem interesse ali e ao pegar aquela área, ela vai construir unidades da Fase em outros municípios. É isso? 
Secretário de Justiça e Desenvolvimento Social do Estado, Fernando Schiller: Exatamente. É uma permuta por licitação. Teremos um comitê de acompanhamento externo amplo, mas essencialmente há uma concorrência direta e o vencedor terá a obrigação de construir no padrão determinado pelo Estado, com controle bastante forte, essas unidades adaptadas dentro do padrão. O projeto arquitetônico é feito pelos técnicos da própria Fase, a empresa que ganhar a licitação faz a construção e evidentemente a melhor proposta a partir da construção das unidades e dos valores que forem oferecidos será a vencedora. Um ponto central do projeto é que todo o recurso obtido ou toda permuta direta será utilizada apenas na construção das unidades descentralizas. Ou seja, é uma forma que o Estado encontrou de preservar o seu patrimônio. Hoje é um patrimônio que não serve para sua finalidade, nós teremos um outro patrimônio público, ele será todo público, tombado para o Estado, mas adequado à finalidade que é a recuperação socioeducativa dos adolescentes infratores.

Ou seja, (3) uma construtora leva um terreno valorizado na capital, em troca constrói unidades da Fase no interior. Aqui o risco de se criar uma aceêmica mãe de todas as bandalheiras é enorme. Talvez estejamos para ver, no RS de hoje, aquilo que os soteropolitanos viram no final dos anos 60: terrenos públicos vendidos a 2 cruzeiros o metro quadrado. 

É verdade que as crianças e adolescentes recolhidos nas unidades da Fase precisam ficar próximos das suas famílias, e é nobre que se busque meios de aproximá-las. Mas é torpe vender patrimônio público como se fosse realização de uma causa nobre. E realizar o negócio em tais bases, envolvendo uma construtora que colocará as mãos em uma área nobre, é menos do que torpe. É aceêmico. 

Sobre o projeto de venda do terreno nobre nas vizinhanças da Av. Padre Cacique em troca da construção de unidades da Fase no interior, o secretário de Yeda diz:

Sem tirar recursos do orçamento, será uma pequena revolução no sistema da Justiça Juvenil.

Esse simplesmente não é o ponto. Não vamos nem discutir o exagero retórico da "pequena revolução", o que me parece abuso verbal sobre um público que está sendo abusado de diversas formas. Vamos focar no "sem tirar recursos do orçamento". Ora, o ponto que preocupa não é esse, mas sim o neoaceemismo. 

O aceemismo estilo vésperas do natal de 1968 faz duas coisas erradas. Primeiro, vende um bem público que faz falta no presente, e fará mais falta ainda no futuro. Segundo, o vende por meros 2 cruzeiros/m². O que mais preocupa é o primeiro erro, pois o futuro tem o hábito de virar presente. Aliás, é por isso que escolhemos governantes, os quais devem ser guardiões do futuro. 

Há um quarto ponto a ser considerado. O secretário de Yeda diz, no trecho da entrevista reproduzido acima, que (4) o patrimônio público é preservado com essa proposta. Seu raciocínio parece ser o seguinte: (4.1) a Fase manterá sua capacidade de atendimento, (4.2) estará mais próxima da população atingida, e (4.3) a aproximação se fará com dinheiro privado. 

Temos que admitir que, se um serviço se torna mais acessível, o serviço foi melhorado. Isso nos leva a desejar a construção de unidades da Fase no interior do estado, pelos motivos indicados pelo secretário: os pais de muitos menores são do interior. 

Mas serviço público é uma coisa, patrimônio público é outra. Ninguém discute a necessidade urgente de melhorar os serviços públicos. Aliás, é o que mais exigimos do governo Yeda. Considerando tudo, seria ótimo se Yeda pelo menos não tivesse piorado os serviços públicos, fechando dezenas de escolas no RS, por exemplo. Que se melhore os serviços é dever e promessa de políticos, mas que se confunda serviço com patrimônio ou é erro puro e simples, ou é má-fé. Não há nenhuma relação entre o serviço prestado pela Fase, o qual deve melhorar, e a necessidade de vender o terreno da Fase. Imaginação contrária é confusão, ou engodo. 

Claro, poderíamos perguntar: mas, de onde virá o dinheiro para construir as novas unidades da Fase? A resposta é simples: do mesmo lugar de onde Yeda tirou R$150.000.000,00 para dar à fábrica de cigarros Souza Cruz, em troca da geração de 250 empregos. Sobre este negócio, o economista Roberto Iglesias disse:

É vergonhoso dar R$ 150 milhões para um empreendimento que gera 250 empregos. Qualquer que seja o ponto de vista que se olhe, isso não faz sentido.

Eis os custos públicos de cada emprego gerado, segundo o economista Clóvis Panzarini:

Cada emprego custou R$ 600 mil. Com esse dinheiro, você poderia pagar R$ 1.300 por mês para um professor por 35 anos. E ele daria aula, não fabricaria cigarro.

Tânia Cavalcanti, do Instituto Nacional do Câncer, complementa:

 A indústria lucra e deixa o prejuízo do tratamento para a sociedade como um todo. Não tem o menor sentido essa política. O governo gaúcho está na contramão das boas práticas contra o fumo.

O governo Yeda deu 150 milhões de reais em isenções fiscais a uma fábrica de cigarros, a qual gera 250 empregos, os quais saem mais caro para nós do que os empregos de funcionário públicos como professores e policiais. Isso não quer dizer apenas lucrar às custas do público, pois se trata da geração de gastos públicos: cigarros geram doenças, e os governos gastam no tratamento dos males do cigarro uma vez e meia o que arrecadam, isso quando arrecadam, o que não é nosso caso. 

É claro que o dinheiro tem que vir do estado, pois se trata de um serviço estatal. Não se deve iludir o público com o oximoro do serviço público sem custo algum. No caso, estamos tratando do patrimônio público, o qual pode ser construído com dinheiro privado. Isso era comum em Roma, isso acontecia na São Paulo de Chateaubriand e famílias concorrentes. Mas a proposta do governo Yeda não entra nessa categoria, visto que mistura construção de patrimônio com abdicação aceêmica do mesmo. 

Há um quinto elemento na discussão: (5) é o público, e não uma construtora privada, quem deve decidir o que fazer com o terreno da Fase. Digamos que o público escolha que devam ser construídas escolas e hospitais públicos, além de museus, zonas de preservação e moradias populares. A construtora vencedora da licitação construirá tudo isso e se sentirá paga pelos sorrisos? Certamente não. De modo que é bom deixá-la de fora disso. O secretário de Yeda tem razão quando diz que o terreno não serve para abrigar a Fase, mas é o público e não uma construtora quem deve dizer qual sua serventia. 

Em resumo, inaptidão política de Yeda Crusius à parte, teríamos na Porto Alegre das vésperas do natal de 2009 a triste reprise dos eventos aceêmicos das vésperas do natal da Salvador de 1968 --- e também uma evidência de que as maldades natalinas de Yeda vão além da mão nos bolsos de professores e policiais.  

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Disclaimer

Nota bem que eu publico aqui opiniões de diversas pessoas, o que não quer dizer que eu concorde com tudo. A responsabilidade pelo que reproduzo aqui é dos autores citados. Essa responsabilidade se estende aos autores dos comentários feitos às postagens deste blog.