2009-07-29

A ética das cotas

Não é muito difícil mostrar que, em uma situação como a brasileira, políticas de cotas para grupos sociais desprivilegiados, como mulheres e negros, estão certos do ponto de vista moral, sendo mesmo deveres morais.

Pra começo de conversa, vamos à base de toda e qualquer moralidade: uma posição, teoria ou ponto de vista só conta como moral caso considere da mesma maneira os interesses de todos, não importando sexo, idade, etnia, origem social etc. Basta que uma posição rejeite a igualdade na consideração dos interesses para que esta posição não diga respeito à moralidade, mas sim a alguma outra coisa.

Agora, vamos a um princípio de distribuição do que é escasso. De acordo com o princípio econômico da utilidade marginal, uma quantidade de uma coisa é mais útil para alguém que tem pouco dessa coisa do que para quem tem muito dessa coisa. Exemplo: é diferente dar um real para Hebe Camargo e dar um real para alguém que recebe salário mínimo, ainda que aquilo que se dá seja a mesma coisa nos dois casos: uma nota de um real. Como Hebe Camargo tem um salário astronômico, a nota de um real que dou para ela faz pouca diferença para ela. No entanto, a mesmíssima nota é bem mais útil no bolso do assalariado. Como temos que maximizar o bem-estar geral com nossas ações, e vemos que a mesmíssima ação de abrir mão de um real tem efeitos tão distintos, dependendo de quem o recebe, o melhor a fazer e o moralmente correto é dar um real ao assalariado, e não a Hebe, caso seja o caso de fazer a ação de dar um real a alguém.

Agora, o que quer dizer igual consideração dos interesses? Bem, isso quer dizer que se duas pessoas têm o mesmo interesse (preservar a vida e prosperar são exemplos de interesses), então não se pode satisfazer o interesse de uma sem satisfazer o interesse de outra por causa de alguma característica social saliente da pessoa, como seu sexo ou etnia.

Assim, temos o seguinte quadro: é preciso considerar igualmente os interesses de todos, independentemente de quem são: mulheres ou homens, negros ou brancos, etc. E, quando distribuímos o que é escasso (principalmente quando distribuímos bens que pertence à todos, a res publica), precisamos fazer com que a distribuição gere o máximo de bem-estar, o que se consegue distribuindo os bens a serem partilhados socialmente primeiro a quem os têm em pouca quantidade, depois a quem os têm em grande quantidade.

Digamos agora que somos uma grande empresa, e temos um bem escasso, os cargos de chefia na empresa. Devemos considerar igualmente os interesses de todos os interessados em tais cargos, e precisamos distribuí-los, em primeiro lugar, aos membros de segmentos da sociedade que são mal-representados nos cargos de chefia de grandes empresas. No caso brasileiro, é mais fácil encontrar homens brancos nesses cargos, de modo que a empresa, caso queira agir moralmente, deve começar atribuindo tais cargos a pessoas de outros grupos, como mulheres e negros, fazendo o máximo para mudar o quadro social.

Isso pareceria radical, não? Dado nosso quadro social, seria, pois nosso quadro é de enorme desigualdade na consideração dos interesses, o que quer dizer que nosso quadro é de imoralidade rampante. Nesse caso, esse seria o radicalismo de quem age de maneira moralmente correta, para corrigir faltas morais. Na verdade, a consideração moral exigiria tal radicalismo. Mas, como a própria desigualdade imoral que se quer combater impede tal radicalismo (círculo vicioso), se faz algo mais tímido, como as cotas para membros de grupos oprimidos, como negros e mulheres. Assim, as cotas são um mínimo moral em um quadro no qual seria exigido um máximo moral. Na verdade, não um mínimo de moralidade em uma sociedade escandalosamente imoral, como a nossa.

Vale a pena ler:

2009-07-25

Em via de RT

Maria vê sua mãe assistindo Flashdance pela bilionésima nona vez. Ela tuita:
maria666diablo Minha mãe ama o filme Flashdance!
Sérgio segue Maria, acha isso engraçado, e retuita:
sergiocabron666 RT @maria666diablo Minha mãe ama o filme Flashdance!
Amadeu segue Sérgio, acha isso também acha isso engraçado, e tenta retuitar Sérgio retuitando Maria da seguinte maneira:
amadeuberzerker666 RT @sergiocabron666 Minha mãe ama o filme Flashdance! (via @maria666diablo)
Só que deu merda, pois é a mãe de Maria, e não a mãe de Sérgio, quem ama o filme Flashdance. E o "via" no final não ajuda em nada. Para fazer direito, Amadeu teria que fazer algo como:
amadeuberzerker666 RT @sergiocabron666 RT maria666diablo Minha mãe ama o filme Flashdance!
A auto-escola de Twitter fica por aqui hoje, pessoal :) A moral da história é que o "via" não substitui o RT, e usado da maneira acima traz confusão entre dizer alguma coisa e mencionar o que alguém disse. Os tuiteiros do exemplo não existem.

2009-07-24

Nakba

Nakba (do árabe النكبة, "catástrofe"), é o termo utilizado para designar o êxodo palestino, resultado da declaração de independência de Israel. É comemorado todo dia 15 de maio, o dia seguinte à comemoração da independência de Israel.

Para os palestinos, o dia marca a expulsão e fuga dos palestinos das suas cidades e aldeias, face (1) ao avanço primeiro das tropas judaicas (Yishuv), depois das tropas israelenses; (2) sua derrota na Guerra da Palestina de 1948; (3) sua expulsão da Palestina e (4) a perda das suas propriedades, as quais foram expropriadas pelo Estado de Israel.

2009-07-23

Governo Yeda e um dilema moral

A atenção aos fatos ocorridos em uma época e lugar, dando atenção aos seus contornos morais, nos ajuda a entender melhor o que é viver em tal período histórico. Levando isso em conta, darei alguma atenção a um fato recentíssimo sobre o governo de Yeda Crusius, no Rio Grande do Sul.

Eis o fato, narrado na sua generalidade, justamente para realçar seus contornos morais, e sua exemplaridade. É noite, e um funcionário que presidee uma autarquia do governo estadual recebe em casa a visita do chefe de gabinete da governadora, o qual diz ao funcionário que seu filho está para ser preso pela polícia estadual, mas que ele (o funcionário) pode ligar para o filho e alertá-lo, permitindo que o filho escape da prisão iminente.

Como todos sabem, o fato é real, e envolveu o funcionário de carreira Sérgio Buchmann e Ricardo Lied, o chefe de gabinete da governadora Yeda Crusius. O fato é um dilema moral, pois um dos envolvidos, o funcionário, tem que escolher entre opções carregadas de consequências morais indesejáveis. À primeira vista, a situação moral que se abre é a seguinte:
  • Primeiro, há um fato: o chefe de gabinete da governadora está cometendo uma irregularidade, visto que está ameaçando o sigilo requerido pela operação policial, e pondo em risco a vida dos policiais envolvidos na mesma
  • Mas a irregularidade parece trazer uma vantagem ao funcionário, visto que esse não quer que seu filho seja preso
  • No entanto, o custo disso é a cumplicidade na irregularidade cometida pelo chefe de gabinete da governadora
Levando só isso em conta, há uma primeira versão do dilema moral:
  • Ou ser cúmplice da irregularidade e dar ao filho uma chance de fuga
  • Ou não ser cúmplice, e ver o filho na prisão (a qual de fato ocorreu)
Vendo a coisa de maneira geral, tomando em conta só esses detalhes, parece que o "vantajoso" (no estilo Lei de Gérson e teoria da decisão racional) é ligar para o filho, pois se alguém em cargo mais alto está sendo irregular dessa maneira, é porque espera impunidade, a qual se estenderia ao funcionário.

Mas o funcionário escolhe não ligar para o filho, o qual acaba preso. E isso não significa que ele é irracional, pois é preciso considerar mais um elemento: não há almoço grátis, e se o chefe de gabinete da governadora está destruindo uma operação policial, e pondo em risco a vida de policiais, é porque espera algo em troca. O que seria? Tudo indica que seria algo relativo a um débito irregular. Levando isso em conta, o dilema moral agora é:
  • Ou aceitar o favor do chefe de gabinete da governadora, e estar pronto a fazer um favor irregular em troca
  • Ou recusar tal barganha, e ver o filho na prisão (como de fato ocorreu)
Nas duas versões do dilema, de um lado está uma irregularidade, de outro está a relação pai-filho. Na vida real, o funcionário escolheu a recusa da irregularidade, o que lhe custou ver o filho preso, além de ser exonerado pela sua honestidade, o que é ainda mais incrível do que esse dilema moral.

A meu ver, essa história revela muito sobre o Rio Grande no qual vivemos, e explica de maneira exemplar porque os gaúchos de hoje sentem tanto nojo e revolta com a situação política do estado. Um achaque de tal natureza a um funcionário concursado, o qual tem sua vida privada e familiar envolvida dessa maneira com seu trabalho, é uma agressão moral intolerável. A coisa toda é demasiadamente repugnante, demasiadamente intolerável, e tudo indica que mais à frente vem mais do mesmo. E não estou falando de uma indignação seletiva e midiática como a de um Simon, a qual nada tem a ver com isso, sendo antes mais um detalhe do quadro repugnante. Estou falando do sentimento de ofensa moral na população, de algo que corrói por dentro, ante a sequência infindável de atos inaceitáveis por parte do governo do estado do RS.

A ofensa, no fundo, é a de já ter dito ou pensado um BASTA! um milhão de vezes, mas continuar vendo o horror e o nojo indo em frente, sem parar, no seu caminho lento e fétido do alto de uma eleição ao fundo do esgoto moral e político.

2009-07-21

A estranha posição moral do governo do Acre

O governador do Acre, Binho Marques, do PT, sanciona lei que permite a políticos acusados de improbidade administrativa a contratação de escritórios de advocacia particulares para sua defesa, a qual será paga com verba pública.

Isso por si só já é estranho, e não discutirei. Não entendo como um casuísmo desses possa estar de acordo com o princípio constitucional da isonomia, mas não sou jurista. O que me interessa é o que vem depois, pois a coisa piora com a justificativa do governador. Ele diz que "Quem é correto e vive do salário não tem como bancar advogados". Isso é a mais pura verdade. Mas, do ponto de vista moral, disso não segue que a prioridade seja pagar, com dinheiro público, advogados a políticos acusados de corrupção. Se o governador quer lidar com o problema de garantir a defesa paga pelo governo a quem vive de salário, a prioridade são os assalariados que ganham menos do que os políticos acusados de corrupção. Se não for assim, temos uma lei que é falha do ponto de vista moral.

A partir de reportagem de Altino Machado para a Terra Magazine.

2009-07-18

Medo de avião: a guerra na memória infantil

Traduzo um relato sobre o efeito da guerra na memória das crianças Karma, Jabr, Diana e Hakeem, as quais sobreviveram, com os pais, ao Massacre de Gaza, no qual as forças armadas de Israel invadiram a Faixa de Gaza e mataram centenas de civis, entre o final de 2008 e o início de 2009. Essas crianças viam aviões como máquinas de matar pessoas nas ruas e nas suas casas, o que as fazia não querer entrar em aviões. De acordo com um relato do professor Abdelwahed, da Universidade Al-Azhar de Gaza:
Raid Fattouh é um palestino. Ele é casado com Natasha, uma ucraniana. Eles vivem em Gaza com seus quatro filhos: Karma, de treze anos, Jabr, de dez anos, Diana, de seis anos, e Hakeem, de um ano. Duas semanas atrás, Raid e Natasha quiseram viajar à Ucrânia, após uma estadia de treze anos em Gaza. Foi muito difícil para os pais convencer seus filhos que viajar de avião é confortável e seguro! As crianças não puderam dormir bem por várias noites, antes da viagem por terra a Aman. Elas estavam com medo do avião! Sua pergunta insistente era sobre a situação se o avião bombardeasse alguém e matasse pessoas inocentes, como estes fizeram durante a guerra! A imagem do avião era de uma máquina de matar as pessoas nas ruas e nas casas! Foi enormemente difícil para os pais convencer as crianças a subir no avião no aeroporto de Aman. O pesadelo continuou, e as crianças estavam realmente horrorizadas; elas choraram até subir a bordo. Seu pai me contou que os momentos mais patéticos foram quando as crianças estavam subindo no avião! Depois de entrarem, elas acreditaram nos seus pais. (Moments of Gaza)

2009-07-14

Ateísmo e religião -- comentei de novo no Biscoito Fino

Olá Victor, do comentário #274,

você escreve: "Só tem um problema. Uma religião, ou uma crença em uma religião, não é uma idéia. É uma escolha, que pode ser lá fundamentada em caprichos e neuroses das mais variadas, mas ainda sim é uma opção que não é passível de análise racional."

Ok, aceitemos isto. Você continua: "Os ateus xiitas parecem estúpidos porque tentam combater com idéias racionais algo que passa longe de qualquer racionalidade."

Aqui você desliza, tendo razão por um lado, mas sem vislumbrar o que mais vem junto no pacote.

Pois, por um lado, se religião não é "uma idéia", isto é, se, como você disse, "é uma opção que não é passível de análise racional", então de fato não dá para argumentar contra uma religião. Seria inútil, como no seu exemplo: "É tão risível e ingênuo como você pretender convencer seu camarada que aquela cachorra piranha safada pela qual ele está loucamente apaixonado deve ser esquecida imediatamente, e para isso você mostra dados, números, provas fáticas, estatísticas e o caralho a quatro."

Mas, por outro lado: e se o ateu não faz a caipirice (dawkinsiana, quiçá) de tentar convencer o religioso (o ébrio da paixão), e simplesmente alega que aquilo que é da ordem da religiosidade (da paixão) não deve ocupar as discussões públicas, visto que essas (por serem discussões, logo envolvendo argumentos e razões) são essencialmente racionais?

Acho que, se o ateu faz tal movimento, ele faz duas coisas muito boas. Primeiro, estabelece seu ponto fundamental: o espaço público deve se regrar pela razão, não pelas paixões. Segundo, fica de acordo com uma visão da religiosidade como a de Karen Armstrong (eis a glosa da glosa da posição dela), autora que coloca a religião como algo próximo da arte, tendo como fim a catarse e a elevação, não a crença e a doutrina, as quais seriam falsos frutos da religião, visto que a mesma (como você diz, com razão) não é do espaço da razão.

Abusos de fundo religioso na educação brasileira

Estou transformando um comentário do Idelber Avelar em uma postagem, para facilitar o acesso de todos. Trata-se do comentário #337 à postagem pedindo pros ateus sairem do armário (já falamos disso por aqui). Eis o texto do Idelber:
#337

AnaLú (#129) e Marcus, em todos os seus comentários e também, de forma mais grosseira, o wagner, no #32, e Victor, no #287, dizem que estou "importando uma realidade americana".

É o velho argumento da
malemolência brasileira. Aqui, não, não acontecem essas coisas não!

Esse argumento já foi usado para
desqualificar o movimento negro ("aqui não houve linchamentos, como lá, por que esses negros estão importando black power"?), já foi usado para desqualificar o movimento feminista, já foi usado para desqualificar o movimento gay. E agora, o argumento da jabuticaba volta para negar o sério problema que é a invasão da pseudo-ciência criacionista nas escolas brasileiras.

Como podem dizer que isso só existe nos EUA? Estão realmente acompanhando as notícias? Estão preparados para a enxurrada de
links? Então vamos lá:

20 de
novembro de 2008: Câmara aprova Projeto de Lei 2865/08, do deputado Filipe Pereira (PSC-RJ), que obriga o Poder Público a colocar um exemplar da Bíblia em cada biblioteca pública do País. O projeto, ainda por cima, estabelece leitura de Bíblia em escola pública.

08 de
dezembro de 2008: Estadão publica matéria que mostra que Mackenzie, Colégio Batista e toda a rede de escolas adventistas do País adotam uma postura de não separar religião e ciência nas aulas, levando aos alunos a explicação cristã sobre a criação do mundo junto com os conceitos da teoria evolucionista.

Junho de 2004: Revista Época publica matéria que exibe a imposição do criacionismo nas escolas do Rio de Janeiro durante o governo
Garotinho.

14 de
dezembro de 2008: Folha de São Paulo publica matéria sobre o ensino do criacionismo (fora das aulas de religião, até mesmo no ensino fundamental) no Mackenzie: Material didático do Mackenzie e Pueri Domus traz visão teológica no ensino fundamental. Esse link traz um material mais completo, Há uma versão mais reduzida na Folha Online.

Para completar: Uma Senadora da República -- do PT,
hein? Não do PSC, do PR, do DEM, mas do PT -- já defendeu ensino de criacionismo na escola.

Isso só existe nos Estados Unidos mesmo, Marcus e
AnaLú?

Idelber em julho 14, 2009 10:27 PM

2009-07-13

Azul Timas - incluindo blasfêmias, palavrões e esquecimentos inventados

Religião - Enquanto a Irlanda aprova uma lei antiblasfêmia (o que evidencia de novo que a Europa vai ladeira abaixo), o lance dos lances no momento é o post do Idelber convocando os ateus a sairmos do armário (veja minha postagem sobre isso), e a longa discussão do post, com 196 comentários até agora. Uma das melhores coisas que saiu nos comentários foi dita pelo Maurício Santos, sobre Spinoza falando dos usos e abusos de deus: "Deus é o asilo da ignorância, quando não se tem uma resposta ou explicação, é só chamar a tal 'força superior' e os problemas ganham uma automática e providencial solução".


Produtos - Chimarrão virou refrigerante.

Filosofia - Todos os chefes de departamentos de filosofia da Austrália aprovam documento em prol da melhoria da participação de mulheres na profissão.

Making-Up People - Para ser africano, é preciso ter vivido na África, ou basta ter DNA africano? Eis a discussão.

Saúde - Em tempos de esquecimento inventado, não custa lembrar que o "pai dos genéricos" é Jamil Haddad, não José Serra. E aparecem evidências que falar palavrão ajuda a aliviar a dor. Du caralho!!!

Mídia - Segundo o Óleo do Diabo, Miriam Leitão parece dar sinais de que está começando a desconfiar que é motivo de chacota pública.

Yeda - Ela disse coisas e coisas sobre Lair Ferst, dando voltas e voltas, e nos deixando enjoados e enjoados.

Saindo do armário

O Idelber tá pedindo pra nós ateus sairmos do armário, apesar (melhor, por isso mesmo!) de sermos o grupo mais discriminado e perseguido, tendo maiores chances de perdermos o emprego ou não nos elegermos, por causa das nossas convicções.

Acho que o Idelber tá certo, tá na hora dos ateus aparecermos. Nesse sentido, é ótimo que contemos com algo como o blog da União Nacional dos Ateus. E é fundamental, também, que a gente ocupe o espaço das idéias com argumentos. Esse me parece o ponto central do Idelber sobre as críticas de ateus às doutrinas religiosas. Ele escreve:
Ideias não foram feitas para serem "respeitadas". Ideias foram feitas para serem debatidas, questionadas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas. De preferência com argumentos.
Ele tem razão. E, até onde eu vejo, quem entende de religião, como Karen Armstrong, diria que transformar uma religião em uma doutrina, em algo da ordem da razão, é perverter a religiosidade, cuja essência é a catarse a e elevação, tal como na arte, e a qual se alcança por práticas e experiências do campo do irracional, não por raciocínios e silogismos.

Quando tenta entrar no campo dos argumentos, a religião se torna alvo fácil para os Dennetts e Dawkins da vida. Mas isso não espanta -- o mesmo ocorreria com um quadro de Kandinsky (veja acima), o qual seria pervertido por uma tentativa de transformá-lo em um silogismo. A igreja de São Kandinsky (e há uma igreja de São Coltrane!) seria tola no campo dos argumentos, mas ainda assim sua obra traz elevação, assim como o fazem os rituais, danças e festas religiosas, as quais são cheias de amor e erotismo (quem participa sabe), não de idéias e doutrinas.

Leia também:

2009-07-11

Azul Timas - incluindo um belo nu em preto e branco

Foto - Não perca o site do fotógrafo Jean-François Bauret. A foto ao lado é dele.

Yeda - Governo do RS diz que vai esclarecer tudo com uma nota assinada por Lair Ferst, e Lair Ferst diz que a nota é uma falsificação grosseira. No Diário Gauche.

Honduras - Como a imprensa local não publica os fatos e protestos, uma solução encontrada por alguns hondurenhos foi criar o canal Tele-Golpe no YouTube.


Religião e futebol - FIFA repreende o Brasil pela propaganda religiosa em campo. Melhor comentário sobre o assunto, de guilherme: "Como não há interferência de Deus em resultado de jogos de futebol, porque se houver não se trata de Deus, mas de um ser parcial, torcedor, apaixonado, creio que as manifestações religiosas são inadequadas. Portanto, essa decisão da FIFA, a meu ver, foi acertada, e que toda manifestação de religiosidade seja feita nos lugares em todos têm o desejo de vê-la ou dela participar".

Religião e política - No PR, ex-deputado Carli Filho dirigiu bêbado a 190km/h, matou dois com seu carro blindado, e fez MKT cristão com a tragédia. No Catatau.

Blogosfera - o Biscoito Fino apresenta o blog Rafael Galvão. Vai um gostinho: "Auto-ajuda, no fundo, é apenas uma forma de bajulação do leitor, ainda que injustificada".

Nesta data - em 1995, iniciava o Massacre de Srebrenica, no qual cerca 8 mil bósnios foram assassinados. Via Holocaust Museum.

2009-07-10

Laicidade brasileira

Partindo de uma discussão sobre o acordo Brasil-Vaticano, Luis Nassif abriu uma discussão sobre a relação entre a religião e o Estado brasileiro, focando na questão da laicidade. Como Nassif conta com ótimos leitores, a discussão promete. Eu também participei, respondendo ao leitor André Araújo. Para ele, não há nenhum motivo para que o Brasil seja um Estado laico, visto que se originou de um Estado católico. Eu respondi:
Caro André Araújo,
você confunde origem com justificação. O fato do Estado brasileiro se originar de um Estado católico não justifica a adoção do catolicismo como religião oficial. E nosso arcabouço jurídico justifica a defesa da laicidade. Aliás, dada sua origem religiosa, e dado tal arcabouço, é preciso que o Estado brasileiro reforce, ativamente, tal laicidade.

2009-07-09

Um segredo envolvendo 1 de cada 10 reais arrecadados

Todo o mundo sabe que o Brasil é campeão mundial de taxa de juros, o que nos torna um país que empresta dinheiro de maneira cara. E todo o mundo sabe que uma grande empresa européia, como a Telefónica, pode escolher entre pegar dinheiro emprestado no caro sistema bancário brasileiro, ou no barato sistema bancário europeu.

Mas a Telefónica escolheu pegar R$ 2.000.000.000,00 emprestados no Brasil. Curioso, não?

Bem, isso quer dizer que tem banco brasileiro emprestando bastante dinheiro com juros, carência ou prazo de pagamento melhores do que os europeus. Que bom, não?

E que banco é esse? Bem, é o BNDES, cujo capital é formado por dinheiro dos trabalhadores, via fundo FAT.

Tudo isso parece ótimo, mas há um detalhe sombrio: não se sabe em que condições a Telefónica, a BrasilTelecom, a Telemar, a Vivo e a Oi pegaram emprestado cerca de R$ 2 bilhões do trabalhador cada uma. São um mistério a taxa de juros, a carência e o prazo de pagamento desses empréstimos volumosos.

E, aqui, o sombrio torna-se ainda mais obscuro. Quem tenta descobrir como o dinheiro público foi parar nas mãos dessas multinacionais que deveriam estar capitalizando (hahahahaha) o Brasil, como Jorge Machado, professor da USP, ouve como resposta que isso é dado sigiloso sobre o cliente, o qual é coberto pelo sigilo bancário.

No entanto, o que se pergunta não é um dado sigiloso, mas sim um dado público: qual a política desse banco público e republicano para empréstimos desse vulto? A resposta do BNDES é enganadora, péssima do ponto de vista argumentativo.

O assunto é sério, pois o repasse de dinheiro federal ao BNDES equivale a 11% da arrecadação. Se 1 de cada 10 reais arrecadados é usado para capitalizar capitalistas muito capitalizados, e não se pode nem mesmo saber como esse dinheiro é usado, estamos ante um quadro inaceitável em uma república, e quiçá ante um escândalo envolvendo vergonhosa exploração da população de um país em desenvolvimento por empresas e políticos que curtem uma grana gorda e fácil. Para esclarecer tudo isso é preciso transparência.

Para detalhes, leia BNDES: 166 bilhões e muitos segredos, de Jorge Machado. As informações acima vêm desse texto.

Voto sem pimenta

Bem, a cada eleição, eu e meus parentes não-reaças (vocês sabem, mesmo as melhores famílias têm gente assim) conversamos sobre que candidatos de esquerda escolher. Usualmente escolhemos figuras do PT.

E bem, na última eleição, houve mais de um voto para o agora deputado Paulo Pimenta entre meus parentes. O cara fez sucesso no Vale do Sinos, pelo jeito.

Mas, bem, quando rolar de novo esse papo com essas pessoas, nas próximas eleições, darei aos meus parentes ao menos uma razão para escolher um outro candidato, ao invés de Paulo Pimenta: de maneira inexplicável e injustificável, ele está batalhando pela volta da obrigatoriedade de #diploma para o exercício profissional do jornalismo. Acompanhe o twitter dele (@deputadofederal) e veja.

2009-07-08

Azul Timas

Vamos falar sério: Seria ótimo se inventassem um pendrive que encontrasse sozinho o caminho de volta para nossos bolsos e mochilas! O Alfredo Rebello, que é um cara esperto, amarra o pendrive no chaveiro. Bem, eu amarrei o meu em alguma roupa, e não consigo descobrir qual, pois tem tanta coisa pindurada no meu cabideiro que sinto medo, visto que a mistura de cabideiro, roupas, pendrive e sabelaoquê pode ter formado uma dessas criaturas malignas de filmes de horror. Tomara que eu não tenha lavado a roupa com pendrive e tudo o mais, mas vá saber.

* * * * *

Bem, e a revista Slate mostra que agora não tem jeito: o papa vai ter que aprovar a masturbação, pois quem bate punheta tem melhores chances de foder-plus-reproduzir do que os nonanistas (os não-onanistas). Abençoados sejam os punheteiros, ora bolas !!! Se não fosse por eles, talvez a espécie humana não tivesse cruzado tantos milênios nesse planeta hostil.

* * * * *

Bem, e o Óleo do Diabo mostra que tipo de zelite deu o golpe em Honduras: racistas que tripudiam das nações vizinhas! Isso se prestamos atenção no que diz o chanceler dos caras! E, é claro, não podia faltar um cardeal reaça indo para a TV local para dizer que, se houvesse banho de sangue, a culpa seria dos manifestantes desarmados! Bem, e ele disse isso antes das forças pró-golpe terem matado manifestantes desarmados no aeroporto, na tentativa de volta de Zelaya. Ou seja: quem atirou em manifestante desarmado nem precisa procurar o padre para confessar, pois o cardeal já disse que a culpa é zero. Essa é a igreja "pró-vida", meus amigos. E essa é a zelite hondurenha, racista como em outras partes do nosso continente, inclusive aqui.

2009-07-05

Jorge Machado: Em Defesa da Pirataria Legítima

Reproduzo na íntegra um ótimo texto de esclarecimento e divulgação sobre a pirataria, de autoria do professor de sociologia da USP Jorge Machado. O Betto (como também é conhecido) é autor de uma importante pesquisa sobre a caixa-preta do financiamento do BNDES às teles, e um dos colaboradores do blog Trezentos. Ele também é um grande amigo, e foi um dos caras que me abrigou enquanto estive morando no CRUSP nos anos 1990s -- e foi lá que aprendi a ser quem eu sou! Agradeço ao Porcher por ter chamado minha atenção para esse texto.

* * * * * * *

Em defesa da Pirataria Legítima

Um texto para hackers e leitores inteligentes

Jorge Machado


versão 1.03 - 24.07.2007
(se copiar esse texto, manter a formatação e estilo)

Nossos amigos da indústria têm usado eficientemente os veículos da imprensa para culpar e criminalizar crianças, jovens e adultos que compartilham arquivos na Internet, tratando-os da mesma forma que aqueles que fazem comércio ilegal. A ambos dão o nome de “piratas”. No nosso ponto de vista,compartilhar é uma coisa, comercializar é outra.

Não culpamos os jornalistas, pois sabemos que a grande mídia não vive do anúncio de gente pequena, mas de grandes empresas. Sabemos que não é escolha deles.

Entendemos que existem algumas confusões a respeito das práticas de compartilhamento. O que são produtos piratas? O que é o compartilhamento pela Internet? Qual é a diferença entre comércio e pirataria? Quem são os piratas? Que tal entendermos o contexto do problema para responder a tais perguntas?

O objetivo desse texto é, de forma simples, direta e divertida, proporcionar uma visão mais global sobre essa questão. Vamos falar da pirataria do Caribe, já que seus símbolos são referenciados freqüentemente pelos amigos da indústria.

Segundo um amigo nosso, foi uma corporação de editores monopolistas de Londres, chamada Conger, a primeira a usar o termo “pirata” para o comércio ilegal. Isso em meados do século XVIII, quando adquirir livros a preços justos era algo impensável, pois os livros dessa corporação custavam cerca de três vezes mais que os produzidos pelos colegas escoceses. Para a felicidade de todos, a Conger não existe mais. Mas o termo “pirata” para se referir ao comércio ilegal ficou.

Pela forma com que os piratas são retratados na imprensa, eles deveriam ter poucos amigos. Nós afirmamos que eles têm muito mais amigos do que parece - além das crianças. Apostamos que os leitores desse texto gostarão mais ainda dos piratas. Nós, que defendemos o compartilhamento, viemos aqui limpar a honra deles – na verdade a nossa própria barra, já que somos chamados de “piratas”. A partir de alguns exemplos históricos, vamos mostrar o que é a pirataria legítima. O leitor inteligente vai deduzir o resto.


Um texto para todos os tipos de hackers

Escrevemos para os hackers. Quem é o hacker? É o sujeito que adora fazer perguntas. Ele não se conforma em ficar com uma dúvida e está sempre buscando a resposta. E a cada resposta pode vir uma nova pergunta. Ele quer ver como é “de verdade”, como funcionam as coisas. Ele está longe de ser o sujeito típico saído da maioria de nossos sistemas educacionais! Pois gosta de questionar!

O hacker adora desafios! É assim que ele aprende. Não nos referimos apenas ao hacker do computador, mas ao da Música, das Letras, das Ciências e das Artes, pois há hackers em todas as áreas. Se está pensando que o hacker é criminoso, explicamos: o que comete crimes se chama cracker. O hacker é o do bem. (Anota aí, amigo jornalista).

O bom cientista sabe que a ignorância é o motor da ciência. Ele precisa analisar, checar, ir mais a fundo. Que tal explorar as incertezas, considerando que as respostas obtidas são, no máximo, temporárias? Assim é o hacker. Ele está sempre atrás do conhecimento. E isso consegue através dos OUTROS. E quando descobre algo interessante, mostra à comunidade. Os hackers perceberam que se cada um compartilha com a comunidade o que sabe, todos saem ganhando. No final, uns ajudam os outros. E com isso surgem muitas inovações. Por isso, o hacker mais apreciado é aquele que dá maiores contribuições à comunidade. É assim que ele cria. Os bons artistas e cientistas se parecem com os hackers. São atentos a tudo que ocorre a seu redor. Estão sempre ouvindo e lendo algo, buscando novas idéias. E precisam mostrar o que fazem aos OUTROS, pois se realizam através do reconhecimento que a sociedade lhe dá.

E que eles têm a ver com o pirata? Veremos adiante.


O que significa pirata?

O termo pirata vem do grego peiratés (πειρατής), que vem do verbo peiraooo (πειραω), que significa "esforçar-se", "tratar de", "aventurar-se". O termo peiraoo também está relacionado com apeiratos que significa “experimentado”.

Vamos diferenciar bucaneiros e filibusteiros de piratas. Os primeiros atacavam barcos, tinham hábitos pouco saudáveis e estavam fixado nas costas. Os filibusteiros usavam embarcações bastante leves e não possuiam meios nem conhecimentos para navegar em alto-mar. Os piratas viviam em alto-mar. Suas embarcações eram maiores, adequadas e equipadas para longas viagens. Para atravessar grandes distâncias era necessário ter conhecimentos náuticos e astronômicos avançados, além de mapas detalhados (que eram raros, secretos e caros). Ademais, tinham que ter uma forte disciplina e planejamento para enfrentar longas viagens e as intempéries de quem navega em águas pouco conhecidas. Não devia ser fácil. Ou seria?

Os corsários, eram piratas com carta de corso. A carta de corso o colocava em proteção de algum Estado. Tanto entre piratas e corsários, as tripulações eram de várias nacionalidades e origens, incluindo negros livres e indígenas. Em geral, cada membro da tripulação era selecionado por suas habilidades. Também havia músicos e pintores nos barcos. (Pensa aí, hacker, se você fosse o capitão, quem você ia colocar no seu barco?)


Como surgiram os piratas?

Nos limitemos aos fatos. Havia um Império que exercia domínio sobre os mares. Sua frota era conhecida como “La Armada Invencible”. Tempos de Felipe II, rei da Espanha. Esse Império tinha construído um notável monopólio comercial com suas colônias e controlava as principais rotas. Eram terras que foram tomadas violentamente da população indígena. Também eram tempos da Inquisição, do uso da religião para a expansão do poder e expropriação. Esse império usava a mão de obra escrava para extrair e transportar as riquezas que roubava. E o que faziam as “grandes nações” na época? Os franceses foram obrigados a se aliar aos poderosos vizinhos. A Holanda foi invadida e dominada, sofrendo também com a perseguição religiosa aos protestantes. A Inglaterra estava incapaz de reagir. Os demais também foram dominados pelo medo. Essa máquina de guerra de Felipe II era alimentada pela riqueza saqueada da América.

Nesse ambiente surge a pirataria no Caribe. Durante muitas décadas, a única resistência que os espanhóis encontraram nos mares veio dos piratas e corsários, apoiados pelo povo livre da costa.


A galera e os piratas

Os piratas usavam muitas artimanhas para capturar um barco. Uma delas era navegar a grande distância, fora da visão da embarcação a ser atacada, e esperar dias até achar o momento certo para se aproximar - como uma manhã com denso nevoeiro – com seus barcos leves e velozes.

Não havia escravos em barcos piratas. Quando atacavam, seja uma colônia ou um galeão, os escravos encontrados eram libertados. Pois eram gente do povo, como os piratas. Sabe uma forma de reconhecer um pirata? Por esse grito:

-AFUNDEM AS GALÉS!

Galé é o nome dado aos barcos remados por escravos. O galeão (galeón) era uma galé grande. Grande para caber bastante produto roubado. Eram máquinas movidas a escravo: quando não serviam mais, estes eram jogados ao mar como se fossem pneus velhos.

Para pirata, lugar de Galé era no fundo de oceano!

Um barco pirata era a grande esperança de liberdade para quem vivia na galera (aah rá... agora sabe de onde vem o termo!). Por isso a GALERA estava sempre ao lado dos piratas. Era só encostar o barco que começava a rebelião lá embaixo. E da GALERA surgiram grandes piratas! (Percebeu hacker? No nosso lado é a torcida é grande!). Um deles foi o africano Diego, contramestre de Francis Drake.

Os negros fugidos eram chamados pelos espanhóis de cimarrones. Cimarrón é o nome que davam para animal doméstico que escapa de seu dono. A forma como tratavam os índios não era muito diferente. (Hacker, isso foi no passado, hoje a Espanha é um dos países onde os piratas têm mais amigos!)

Os negros livres e os índios eram os grandes amigos dos piratas. Foi com os índios que os piratas conheceram o tabaco e adquiriram o hábito de usar o cachimbo. Para os índios, o tabaco é sagrado, tem que ser puro e não se traga (não é isso que se vende misturado com pesticidas, fungicidas e aditivos viciantes). Através da fumaça do tabaco, acreditavam poder ”limpar” as energias ruins e conectar com seus ancestrais e as forças da natureza. Foi assim que ensinaram aos piratas. Eles também aprenderam algumas coisas estranhas com os índios: que havia muitas entidades mágicas na natureza e que se podia contar com a energia e poder dos animais. E piratas gostavam muito de serpentes, dragões e aves. Para os piratas, assim como os índios, tudo estava ligado na natureza. (Energias e seres mitológicos... Até parece coisa de oriental, não é hacker?! Ah, hacker você deve ter lembrando que tem dragão até na mitologia nórdica! E diz a lenda que foi um chinês resgatado no oceano que os ensinou que brinco na orelha num certo ponto estimula a visão).

E essa coisa de tapa-olho? Será que todos os cegos da época decidiram virar piratas? Você acredita nessa história? Fala sério! Já deve ter sacado que o tapa-olho cego era para aguçar a visão. E tem mais, servia para confundir o adversário na luta corporal. Pensa aí, hacker: bastava um movimento do corpo ou uma brisa do mar para aquele pedacinho de pano subir...

Nas aldeias indígenas e nas comunidades de negros, podiam descansar, reparar o barco, conseguir víveres e preparar suas próximas empreitadas antes de ficar semanas no mar. (Será que alguém acredita que os piratas eram camponeses que plantavam mandioca e banana?) O povo livre da costa era fonte preciosa de informação sobre o movimento dos barcos espanhóis.

Quem tem muitos amigos se sente bem protegido, percebeu? Principalmente se você está contra aqueles que tratam seus amigos como se fossem gente indigna. Trate bem eles, pois quando precisar deles, estarão contigo. Diz aí, se você morasse na costa também ia dar uma mão para os piratas, não é!? Aposto que sim? (Ah rá... Aposta é coisa de pirata! E tem povo que adora apostar até hoje! Que falem nossos amigos ingleses!)

Piratas fazem comércio?

Piratas faziam ESCAMBO. Registra: E-S-C-A-M-B-O. Escambo significa TROCA. É a troca direta de excedente. Piratas não eram comerciantes. Comércio não é pirataria. Comércio é comércio. Pirataria não tem dinheiro envolvido. No máximo, serve como medida. Repito, medida. Pois nossa mente precisa de medida para calcular, dividir.

Onde você acha que os piratas podiam depositar seu dinheiro? Você acha que os paraísos fiscais do Caribe existiam naquela época? Banco de pirata? Só se for embaixo da terra, mas sem taxas de juros, correção monetária e com o alto risco de não achar mais o endereço!

Ah rá, hacker! E você comprando a história errada esse tempo todo! Andava com a consciência pesada, não é? Não carregue esse peso nas costas! Registra aí:

ESCAMBO = TROCA

COMÉRCIO = COMPRA E VENDA

Anotou? Nem precisa. Você é uma cara inteligente, não esquece nunca mais!

Quem faz comércio não pode ser chamado de pirata. Pirataria Legítima é troca!

Quando alguém chamar um camelô de pirata, você pode falar: “Pirata o escambau!” E escambau vem de escambo! Hacker, se quem troca é pirata, você é um!

Pirata dividia mesmo. Chega a ser engraçado. Em museus europeus é possível ver peças de ouro e prata com marcas de machadadas. Só assim para dividir as peças grandes! E imagine as cacetadas para quebrar o metal! Pelo visto, às vezes não dava certo!

O que era tomado do Império era dividido para possibilitar outras trocas. E quem vive de troca, tem que fazer as coisas circularem. O barco de pirata tinha que ser levinho para navegar rápido. E quem tem muitos amigos em diferentes lugares, pode se dar ao luxo de levar pouca coisa! Quem leva muita coisa é galeão do Império, que tem de ser grande para caber todo o produto do roubo. Além disso, eles precisavam pagar as guerras que arrumavam mundo afora (ei, hacker, naquele tempo não havia o petróleo). Ah... Você deve estar pensando “que bom que os piratas deram uma lição nesses malvados! Eles iam gastar tudo com bobagem!” Isso mesmo, o problema era que na época ninguém podia dar umas palmadinhas nos bumbuns deles. Exceto, é claro, os piratas!


Recapitulando

Um Império cujo poder se apoiava numa enorme máquina de guerra e em monopólios econômicos, que se alimentam reciprocamente. Leva a cabo uma guerra religiosa que espalha o terror no mundo, cujo objetivo é aumentar ainda mais seu poder, baseado no medo. Apesar das injustiças e atrocidades cometidas, nenhuma nação era capaz de enfrentá-lo. Algumas, inclusive, se aliaram cômoda e cínicamente a ele. É esse contexto que surgem os piratas e seus amigos ousados, com seus barcos leves e rápidos. Uau, dá um filme muito legal. E bem atual!

Está certo que os piratas fizeram suas maldades, mas agora estamos em tempos de procurar a paz e fazer novos amigos. Vamos estender as mãos para aqueles que têm problemas com os piratas da informação. Os primeiros a serem convidados a subirem no nosso barco serão os advogados. Quem sabe, depois, os nossos amigos jornalistas.

Nossos amigos advogados são muito inteligentes. Assim como os piratas, gostam de porto seguro. Os advogados sabem que é próximo a um porto seguro onde se constrói uma boa fortaleza. Eles vivem fazendo cálculos métricos com base nas leis e nas vírgulas das leis. Esses caras são inteligentes mesmo. E pessoas inteligentes gostam de desafios! Que tal atravessar o oceano se orientando pelas estrelas e com a luz do luar?

Consegue imaginar o céu estrelado visto do alto-mar? Inspirador, não? Dá para imaginar navegar sem farol, sem radar, sem GPS, sem o etcétera eletrônico? E se surge um rochedo no meio do nada? Deveria ser emocionante, não é, hacker? Eram as estrelas que guiavam esses caras! Também, olhar para onde mais? Em todo caso, tinha que ser fera, não acha? Será que bêbados, brigões e gente fora de forma ia agüentar essa parada? Bucaneiro tem que dar um jeito na própria vida para virar pirata! É como cracker querendo dar uma de hacker. Fala sério!!

Os caras de hollywood deveriam pensar mais antes de fazer os filmes!


Compartilhamento é a única forma de Pirataria

O comércio de informação existe devido aos monopólios que geram um bloqueio artificial. Se fulano vende CDs ou filmes está apenas tirando proveito de uma situação que provavelmente não foi ele quem criou. O que ele comercializa não é um produto pirata, são apenas cópias ilegalmente vendidas. Não existe produto pirata. Pois pirata não produz “produto”. Existe produto falso. Mas isso não é coisa de pirata, é coisa de comerciante!

A regra é simples: tem dinheiro na jogada não é pirataria. Senão se convenceu, leia essa história da Vovó.


O delicioso bolo da vovó

Imagine um bolo suculento. Digamos que seja um bolo de chocolate recheado com castanhas. Muito mais que isso, foi feito por quem? Pela Vovó! Isso mesmo, falamos daquela senhora maravilhosa que sempre te bajulou. A Vovó tem bastante tempo disponível para fazer as coisas com carinho para seu netinho. E ela quer fazer tudo o que não pôde fazer quando era mãe. É como ser “mãe pela segunda vez”. Não é assim que elas falam?

Imagine aquela delícia do bolo da Vovó. Feito com aquele jeitinho e experiência que só ela tem. Ela sabe exatamente como fazer o bolo para te agradar. Hum, dá água na boca! E você esperou a semana inteira pelo bolo. Até sonhou com ele. Aqueles recheio derretendo na sua boca... Humm

O bolo da Vovó é famoso nas redondezas. Os vizinhos todos conhecem. Eles ficam até torcendo para os netinhos virem no final de semana, pois sabem que pode sobrar um pedacinho para eles!

Você chega na casa da Vovó, e ela está fazendo o bolo. Imagine aquele cheiro delicioso vindo da cozinha. Uahhh! Seu estômago está roncando. Ela diz para você comer um biscoitinho ou uma fruta enquanto espera sentado na sala. Você nega categoricamente. Seu estômago já estendeu um tapete vermelho para o bolo. Tem que ser o bolo! Compreensível, você esperou a semana inteira por essa delícia, não é agora que vai “jogar a toalha”, não é hacker?!

O tempo se arrasta. Suas pernas já estão trêmulas. Você já perguntou umas três vezes “falta muito, vovó?”. De repente, ouve a voz amável da velhinha avisar lá da cozinha “O bolo está pronto, netinho”. Antes de você pular do sofá, a Vovó logo emenda: “Mas tem que esperar esfriar antes de comer! Nada de comer antes da hora!”

O bolo repousa solenemente em cima da mesa. Aquele cheiro já havia se espalhado por toda a casa e arredores. Você está quase surtando. Seus instintos mais primitivos ameaçam vir à tona. Mas você se controla. Afinal, você é um cara do bem, um hacker, não um cracker. Onde já se viu, magoar a querida Vovó!

Você esperava pacientemente na sala. Sorrateiramente, algum espertinho pula o muro, entra sem ninguém perceber na cozinha e ZAZ! Leva o bolo!!

A Vovó volta para a cozinha, não vê nada. Vai à sala e lhe diz: “Seu fominha, que fez com o bolo?! Não lhe falei para esperar!

Você fica chocado. Algo grave aconteceu. Com a voz embargada, só consegue balbuciar, “nã-não fui eu!”. A Vovó, essa senhora que limpou muito seu traseiro, te conhece pelo avesso. Ela percebe que não está mentindo e se dá conta de tudo: “Não pode ser!”.

Pânico e desespero. Onde está o bolo da Vovó?! Não pode ser verdade! Que pesadelo! Levaram o bolo da Vovó! Você e a vovó correm para a rua. Imagine a cena, hacker: você quase morrendo de esperar o bolo e alguém faz uma dessa! Só pode ser cracker!

Alguém grita: “Chamem a Polícia, levaram o bolo da Vovó!” Alguns vizinhos saem à rua (Ah rá... E ficaram sem o naquinho também!). “Devolva meu bolo, seu malvado!” grita a Vovó inutilmente com todas suas forças.

(Tá vendo, Vovó. É a desigualdade social. Que tal se todos tivessem acesso ao seu bolo? Onde estão seus ideais? Acha que não dá mais para mudar o mundo nessas alturas? E a militância nos movimentos sociais, Vovó? A vovó achou que ia passar sem críticas nessa história? Nada disso, a gente quer que você vá dar uma mão pro seu netinho, antes que processem ele por compartilhar arquivos...).

Foi-se o bolo da Vovó. Que experiência traumática... Não vai chorar, né, hacker!?

Agora imagine que alguém pula o muro, leva o bolo, mas, incrivelmente, ele continua lá! No mesmo lugar, sobre a mesa!! Como isso? levaram o bolo, mas ele continua lá!

Depois outra pessoa leva. E outra. E outra. E outros levam dos demais. Que loucura é essa?!

Com a informação é isso. Passou o tempo em que os espanhóis, e antes deles, os índios, perdiam seu bolo, digo seu ouro. Agora são tempos de paz. Tem para todo mundo. Os piratas da informação não precisam dividir peças a machadadas, nem bolos a facadas. Já foi o tempo em que se espetava alguém para conseguir o que se queria. Hoje, simplesmente se consegue uma cópia perfeita sem tirar nenhum naquinho do original para se compartilhar com os amigos. E o bolo continua onde está! Não é lindo isso, meu amigo?


A Internet é uma Rede de Compartilhamento!

A Internet é uma rede de compartilhamento. Ela foi criada para compartilhar: a) banco de dados; b) banda de transmissão; c) processamento de dados.

Isto significa que se você está usando ela, está compartilhando. Que outra coisa alguém esperaria de uma rede feita para o compartilhamento? Parece tão óbvio, mas tem gente que ainda não captou! Ou será que não quer entender? Dá para ser mais claro?!

Como evitar que se compartilhe numa rede de compartilhamento? Impondo barreiras inúteis? Violando a privacidade? Processando milhares de jovens?

Num cabo de fibra ótica com a espessura de um fio de cabelo passam 17 bilhões de bits por segundo. É uma torrente de bits. É informação que flui como luz, colorida como um arco-íris. Nessa luz, circulam imagens, livros, sons. Enfim, a criatividade humana. Dá para imaginar que tem amigo que insiste em botar sujeiras de bits inúteis, ineficientes e dispendiosas no meio do caminho?

Como sustentar uma artificial escassez de bits? O que faz a Internet ser o que é, é o fluxo. A pirataria legítima é bolo da Vovó para todo mundo! Se a Vovó quiser vender, problema dela. Os piratas não vão impedir, mas já que tem para todo mundo, não vão deixar de comer também!


Esse discurso é legal. Mas e o autor, como é que fica?

O autor é muito importante. Tão importante que cada vez mais o chamamos de criador. Bonito, não é? Mas, o mais honesto seria chamá-lo de co-criador. Pois ninguém cria sozinho. Ou cria? Vivemos numa bolha? Se vívêssemos numa bolha, seríamos uma bolha dentro da bolha. Se algum artista acredita que cria só, deve ser um artista-bolha!

Graças aos OUTROS somos muito mais do que bolhas. Pois os OUTROS passam as idéias para nós desde que nascemos. Ou melhor, antes, desde a barriguinha da mãe (Se não acredita, pergunta à sua mãe ou à Vovó, hacker).

O que é, afinal, o autor sem os OUTROS? Ainda bem, que não precisamos pagar por todas as idéias que utilizamos dos OUTROS! Imagine como citá-los, nominá-los, pagar royalties? Não dá para conceber. Seria uma impropriedade intelectual! Ufa! Ainda bem que existem os OUTROS para nos passarem suas idéias! Cada coisa legal que dá para criar a partir das idéias dos OUTROS!

Será que o autor, ou melhor, co-criador, não deveria devolver o que criou a partir dos OUTROS? Ah... Rá Hacker... Você já deve ter percebido que não é o autor que está querendo impedir! Alguns deles estão meio na dúvida, é claro. Mas o problema é que alguns amigos nossos que gostam de falar no nome do autor, não estão pensando nele, mas sim no seu próprio bolso.


E os OUTROS?

- Ah, mas quem se importa com os OUTROS hoje em dia?

Nós, os piratas da informação, nos importamos! Por isso, compartilhamos com os OUTROS! Não sabemos exatamente quem são os OUTROS, mas estamos agradecidos por AINDA existirem. E não estamos muito felizes com a atual situação. Pela simples razão que o “seu” e o “meu” está atrapalhando a criatividade. Esse é o foco do conflito.


Conclusão

Navegar e criar com liberdade. Isso é algo muito importante. Estamos em um tempo de paz e pedimos para nossos amigos que parem de controlar ou tentar censurar a Internet. Cuidem dos crimes comuns, do comércio ilegal, dos problemas ambientais e sociais. Imaginamos que nossos amigos não vão insistir nessa coisa suja de violar a privacidade. Não roubamos o bolo da vovó de ninguém. Ele está lá, é só olhar.

A esta altura, nossos amigos perceberam que o conhecimento e a criatividade dependem do acesso à fonte. Perceberam que é graças a nós, que compartilhamos sem exigir nada em troca, que a Internet é tão interessante. Perceberam que a fonte da criação tem que estar sempre acessível para que a criatividade não pereça. Como seria a rede se ela tivesse sido desenhada por advogados? Uma infinidade de autorizações, licenças, avisos, advertências, dispositivos anti-trocas, obstáculos e burocracia de todo tipo? Talvez os cibercafés tivessem que funcionar dentro de cartórios. E se a Rede fosse desenhada apenas pelas corporações? Só se poderia navegar com cartão de crédito. Seria como viajar de táxi. Nem todos poderiam pagar, não é verdade?

Como seria a Internet se fosse do jeito que eles querem? Muitas das inovações que proporcionam lazer e alegria aos nossos amigos talvez nem tivessem existido. Pensa aí, não foram hackers que fizeram muito daquilo que você mais usa?

O problema da rede é que foi desenhada para servir aos OUTROS. Mas, as pessoas não são mais educadas para servir aos OUTROS. E a sociedade se organiza cada vez mais de forma que o indivíduo possa tirar o máximo de beneficio dos OUTROS. E pior, que se aproprie daquilo que é dos OUTROS, como se fosse exclusivamente seu! E quais são os direitos dos OUTROS? Cada vez mais os OUTROS se parecem com o povo que vivia na galera: ajudavam a enriquecer alguns poucos, mas mal tinham ar puro para respirar!

No passado, havia galeões bem armados que não gostavam da gente. Talvez não existisse outro símbolo maior de injustiça naquela época do que aqueles galeões cheios de riqueza roubada, empurrados pela força de escravos, saindo de um triste porto rumo à Europa.

No entanto, eles andavam tão carregados que eram lentos demais. Bastava uma pequena névoa para um de nossos barcos encostar. O Império tinha medo dos piratas, pois sabia que a galera que levava o barco estava do lado deles! Além disso, na nossa perspectiva, faltava apenas um pouco de coragem para o marujo da galeão mudar de lado. Qualquer um era aliado em potencial, até mesmo o capitão! Bastava aceitar COMPARTILHAR. Mas essa era uma linguagem que o Império não entendia. Por que? Porque não aprendeu a COMPARTILHAR.

Nossos amigos são inteligentes para perceber que não somos contra o comércio que fazem, queremos apenas continuar a fazer nossas trocas livres com o povo miúdo que vive na costa.

Embora eventualmente alguns de nossos amigos queiram criar inimigos para justificar suas atitudes, insistimos que desistam disso. A história mostrou que o Império dominava seus escravos pelo medo. E isso não deu certo com os piratas.


Valeu hacker.

2009-07-04

Os mestres dos 140 caracteres

Muita gente ainda não sabe muito bem o que fazer no Twitter. Para esses, eu indico um conjunto de miniblogs imperdíveis. Siga-os, e entenda o valor, a utilidade e a riqueza da ferramenta:
  • ElGabo - o escritor Gabriel García Márquez. Nada mais, nada menos. O laureado com o Prêmio Nobel de 1982 nem precisa esgotar o limite dos 140 caracteres para escrever maravilhas como "Puedes empezar a saber cómo es la gente cuando la ves tomar café. Pero debes saber cómo ver".
  • iavelar - o já lendário blogueiro e professor universitário Idelber Avelar (do blog Biscoito Fino) também não precisa de muito espaço na tela para enriquecer teu dica. Acompanhe-o, em tempo real, cavando as melhores fontes de informação sobre os últimos acontecimentos, interagindo com as mesmas, e nos levando a interagir também.
  • tuliovianna - o blogueiro (blog tuliovianna.org, blog Trezentos), professor universitário e militante pró-Partido Pirata brasileiro, Túlio Vianna conhece muito, e de perto, a legislação brasileira, conseguindo desmanchar incompreensões comuns que têm ou teriam graves consequências com argumentos claros, sólidos e bem embasados.
  • semiramis - a blogueira (blog cynthiasemiramis.org), professora universitária e feminista Cynthia Semíramis consegue apresentar, de maneira lúcida e serena, várias formas de machismo e sexismo que são onipresentes, mas invisíveis. Difícil deixar de notar melhor o desprezo pelas mulheres no espaço público político e midiático, após ler suas observações.
  • MarceloBranco - um dos organizadores do influente e bem-sucedido Fórum Internacional de Software Livre (FISL), Marcelo Branco é um dos principais militantes pró-liberdade, democracia e inclusão no espaço digital. Um dos principais exemplos disso é sua participação na luta (#meganao) contra o estranho projeto de lei do senador Azeredo (#ai5digital), o qual atenta contra nossas liberdades, prerrogativas e direitos básicos, ao tratar todos como suspeitos, supor sem prova alguma que todos são culpados e propor, sem motivo saliente para isso, a invasão sistemática da privacidade e intimidade das pessoas.

Você disse 'religião'? Cala a boca e dança!

O Guardian deste sábado traz uma resenha do livro The Case of God, de Karen Armstrong, pelo filósofo Simon Blackburn. Eis a glosa da resenha.

Religiões usam rituais, mistério, dança e meditação para nos ajudar a lidar com este mundo, o qual é causa de sofrimento para muitos. Ao fazer isso, as religiões estabelecem práticas valiosas, e nosso envolvimento nas mesmas é tão rico quanto nosso envolvimento com a arte. Em ambos os casos, arte e religião, as experiências de quem se aplica às respectivas práticas trazem serenidade e elevação.

Na visão de Karen Armstrong, a religião deve ser isso: uma prática que nos eleva. E é isso o que encontramos nos rituais, festas, danças e meditações típicas das maiores religiões.

No entanto, há um elemento indevido que tem estado misturado a tudo isso desde o século 17: a tentativa de transformar a prática religiosa em algo intelectual, em algo feito de palavras, ao invés de feito com o corpo.

Desde a ascenção da ciência no século 17, tem se tentado, indevidamente, transformar a religião-prática em religião-crença, e em religião-dogma. Essa é, na visão de Armstrong, uma perversão da religião. De acordo com a visão dela, são esses "religiosos" perversos, os quais falam e exigem concordância total ao invés de calarem a boca e dançarem, que são ridicularizados pelos ateus. Já os religiosos mesmo, os da prática, da elevação pela dança e pelo ritual, esses seriam imunes aos ataques de Dawkins, Dennett e outros, pois não querem nos convencer de nada, visto que se limitam a fruir de uma experiência elevada e significativa, tal como se tem com a arte.

Enfim, os que praticam a religião o fazem em silêncio argumentativo, e por praticarem ao invés de discutirem e exigirem total aceitação, nada fazem de ridículo aos olhos de quem argumenta. Suas práticas lhes dão serenidade, e são valiosas por si sós. O que eles alcançam não é uma crença ou um conjunto de proposições a serem defendidas a qualquer custo, mas sim uma vida com experiências valiosas e significativas.

Assim, o que um religioso deve dizer sobre a religião? Ora, nada !! Religião é prática, não diálogo racional. Praticar religião é algo que se faz em silêncio.

O livro da Armstrong parece ótimo, e fiquei com vontade de lê-lo. Ou não! Talvez o melhor fosse partir direto para alguma prática, de preferência bem pagã.

Disclaimer

Nota bem que eu publico aqui opiniões de diversas pessoas, o que não quer dizer que eu concorde com tudo. A responsabilidade pelo que reproduzo aqui é dos autores citados. Essa responsabilidade se estende aos autores dos comentários feitos às postagens deste blog.