2009-08-31

Xau, Paulo Francis!

Do Blog do Planalto:
A descoberta do Pré-sal é uma benção, mas é também uma recompensa gratificante para todos os que acreditaram e lutaram para provar a capacidade, a competência e a criatividade que o povo brasileiro tem para vencer desafios, mesmo aqueles considerados impossíveis. Ficaram para trás os que duvidaram da existência de petróleo no Brasil, os que duvidaram que pudéssemos retirar o petróleo da terra ou do fundo do mar com nossos próprios recursos e os que duvidaram que uma empresa estatal pudesse ser competitiva, lucrativa e respeitada mundialmente. E serão vencidos os que duvidarem da nossa capacidade de transformar o pré-sal em uma pista de vôo para um o futuro com mais prosperidade e menos desigualdades.
Fato. Os brasileiros que fazem acontecer ganham o terreno, os brasileiros (com autoimagem distorcida) que se acham incapazes do que quer que seja ficam para trás. Há muita coisa importante dita na passagem acima, pois está se lembrando, também, da batalha dos brasileiros que lutaram desde os anos 1940s ao menos pela criação da Petrobrás. Mas focarei apenas em um ponto, o qual foi apenas sugerido indiretamente pelo texto do Blog do Planalto: no atual momento, o Brasil que aposta nos valores humanos (muitas vezes ditos "ocidentais") da igualdade e da liberdade dão sua contribuição e colhem reconhecimento, enquanto os brasileiros que promovem ou defendem práticas desumanas perdem terreno.

Levando isso em conta, eis uma boa hora para dizer: xau, Paulo Francis! Suas viúvas em algumas redações, partidos e associações patronais ainda vão elaborar o luto pela sua morte por muito tempo, pois sentirão muita falta daquela ideologia da exploração dos recursos humanos e naturais brasileiros por uns poucos (estrangeiros ou não) que dominava algumas mentes, entre a queda do Muro de Berlim em 1989 e a queda de Wall Street em 2008. Para os nostálgicos em geral desse mundo que defendia e praticava a exacerbação da exploração do homem pelo homem, vale o que o Rafael Galvão disse para uma pequena parcela desses:
Se se pode alegar que há 20 anos a esquerda era atrasada — e eu poderia discutir isso, admitindo sem muita vergonha que em muitas coisas estava, sim –, o fato é que é essa direita que um dia se pretendeu moderna hoje se vê superada até mesmo em seu próprio campo. O mundo que eles enxergam é o mundo de 1989, quando Mário Covas apontava uma concepção de Estado bastante pertinente e melhor que a que defendíamos. Mas o tempo passou e agora o PSDB [e outras viúvas de Paulo Francis] não consegue[m] apresentar um projeto superior ao da esquerda [...]. Mostraram que não conseguiram se reciclar, e assistem às suas concepções serem superadas pela história — ao contrário do lado de cá, que entendeu que muitas de suas concepções filosóficas eram equivocadas e muitas vezes soube fazer correções de rota necessárias.
Pela clareza e precisão, este texto do Rafael Galvão é fundamental. Sim, ele diz, 20 anos atrás a esquerda brasileira era atrasada, levava nas costas e na mente o peso morto do que havia de pior no marxismo do leste europeu. Mas isso foi superado, e hoje nossa esquerda defende práticas que estão mais próximas do desenvolvimentismo de Amartya Sen, do igualitarismo de Peter Singer ou do liberalismo de Thomas Nagel & Liam Murphy do que do socialismo de algum suposto marxista. De mod que nossa direita foi moderna por um tempo, mas o tempo passa, como é da sua natureza, e nossa direita ficou para trás. O que parecia sensato há 20 anos atrás, hoje parece absurdo e mesmo curioso. Os que faxinaram suas mentes foram recompensados por isso, e as viúvas de Paulo Francis melhor fariam se também se reciclassem.

2 comentários:

  1. Lindo post, Sérgio! Assisti o lançamento no NBR, foi demais.

    Abrs!

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  2. Acho ilusão pensar que a complicada (palavra que não diz nada, mas diz tudo) esquerda brasileira entre em sintonia com o grande Amartya Sen. Eu, como um liberal socialista, gostaria muito de que isso acontecesse. Mas o Francis tinha razão quando reclamava da Petrosauro. A descoberta do Pré Sal foi possível exatamente porque houve em 1997 uma mudança significativa no marco regulatório do Petróleo no Brasil, com a quebra do monopólio (mas não todo) do petróleo e a participação de empresas nacionais e estrangeiras na exploração do ouro negro, inclusive em pesquisas. Com a mudança a Petrobrás conseguiu focar no que efetivamente importa e deu no que deu: descobrimos o pré sal. Mudar a atual regra em 45 dias, como quer o governo Lula, é absurdo. Mas acho sim que recurso obtido com a exploração do petróleo deve ir para a educação, para a saúde e para a infra estrutura. Mas não deve ir para pagar a folha de pagamento do governo e dos políticos. Este que é o problema de se criar mais uma (eca) estatal.

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