2009-05-28

Os deformadores de opinião e os presídios

O RS Urgente traz um texto fundamental de Lupiscinio Pires sobre a situação humanamente inaceitável dos presídios e as gracinhas ditas em rádios e escritas em jornais pelos deformadores de opinião. Eis o texto:
Não há como negar que a politica preconizada pelos chamados formadores de opinião “deu certo”. Os presídios estão destruídos ou semidestruídos. Ao longo dos anos as pessoas que pregavam investimento no sistema carcerário gaucho eram ridicularizados por vários jornalistas. Qualquer pessoa que fizesse a pregação da melhora dos presídios recebia o rótulo de “defensor dos bandidos”. Expressões do tipo “cadeia não é hotel”, “bandido tem que passar trabalho” eram recorrentes nos horários matutinos do rádio gaucho. Foram anos e anos. Havia um clamor por certos setores da imprensa insistindo que o Executivo não devesse investir um centavo na melhoria dos estabelecimentos prisionais. A politica de segurança pública sugerida pelo chamados formadores de opinião foi exitosa. Os presídios estão desabando.

Quem tem memória lembra da pregação insistente da deterioração do setor carcerário gaucho. [...] O sucateamento dos presídios é tão grande que a bárbarie se generalizou. “Deu certo” a pregação de determinados jornalistas. O que fazer agora? Era o momento destes mesmos jornalistas apontarem a solução para o caos instalado.
Eu comentei:
Postagem fundamental, Marco. O problema é sério, e nossas autoridades estaduais e nossos deformadores estão muito abaixo do nível mínimo de visão requerido. Quem paga o pato somos nós. O festival de incompetência e irresponsabilidade é enorme. O governo federal disponibilizou R$ 44 milhões para o governo estadual do RS investir em presídios, mas nada foi feito. Juízes que se recusam a enviar pessoas aos presídios sofrem assédio moral por parte dos deformadores de opinião. E, o pior de tudo: nós brasileiros temos um conceito infeliz de direitos humanos, segundo a Anistia Internacional. Aqui é fundamental apontar responsabilidades: os deformadores de opinião das rádios e jornais tendem a pender pelo tratamento cruel de suspeitos, aprovam isso. Eis como chegamos a esse quadro bárbaro.

4 comentários:

  1. Cesar!
    O importante da decisão do Juiz de direito Paulo Irion foi o fato de trazer à discussão o delicado tema da situação carcerária nacional. No mais, creio, a decisão está de todo errada, mas, veja, não porque os criminosos devam mofar na cadeia, ou por que não prestam, ou porque não tem “cura” e, sim porque vai fazer com que a sensação de impunidade que paira no ar se torne quase uma verdade, uma espécie de - Oba liberou geral!
    A ressocialização dos apenados nem é mais tema desta discussão, o mote, hoje, é o número de presos por instituição carcerária, ou seja, há muito deixou (a sociedade) de se preocupar com a finalidade da prisão. Para a massa média, todos têm que mofar na cadeia, não importando as condições destas. Vemos então o Poder se vingando e não mais punindo.
    AS cadeias, salvo uma ou duas exceções são portais do inferno: do jogo baixo e mesquinho de poder, até a promiscuidade, periculosidade, insalubridade, todos em graus inimagináveis, para qualquer um, que nunca tenha passado perto de uma. No entorno já está formada humilhação e degradação que gruda na pele dos apenados e seus familiares, o pequeno comércio das casas circunvizinhas, que cobram um ou dois reais para parentes deixarem roupas, bolsas, malas, uma espécie de chapelaria do absurdo! 50 centavos um copo de água, nas intermináveis e grotescas filas que se formam nos dias de visita, dois reais o banheiro e por aí vai.
    A indefectível revista, ao sabor do sadismo dos guardas - agentes (que por sua vez, vivem na prisão e nas mesmas condições sub-tudo, 10 a 12 horas do seu dia, quando não estão de plantão – 24 horas). O apenado ao transitar nos corredores deve andar de cabeça baixa e de braços cruzados, tem muito mais, mas para ilustra chega. Some-se, então, a tudo isso, esgoto escorrendo livre na cela, vaso sanitário sem privacidade e numa cela de 20 metros quadrados, idealizada, inicialmente para dois presos, mais de 12, às vezes 18! Mais, as diferenças de cada um, as inimizades, as juras de morte... Tudo permeado pelo fedor, que simplesmente é insuportável a qualquer nariz humano! O cheiro de fezes, o cheiro de urina, o cheiro de esgoto, o cheiro da falta de banho, das doenças de pele, dos piolhos, dos chatos, do medo, sim, o medo faz com que o suor exalado seja fedido, é triste, mas é real! Já ouvi de um delegado da polícia federal, uma vez, a pergunta feita a queima roupa, numa madrugada fria, de uma apreensão de 100 gramas de pó e enquanto aguardavam-se os depoimentos, se eu já tinha notado o fedor que exalava desta gentinha podre...
    Se, voltando à discussão sobre a liberação dos presos, fosse realizado um mutirão, uma força-tarefa, realmente séria, que em um ou dois meses estudasse caso a caso dos apenados, certamente as prisões teriam com folga, menos 30 a 35% da lotação que tem hoje. Somado a isso, estudássemos a progressão ( mais de 50% tem direito) e a transformação de algumas penas em serviços comunitários, tenho certeza, não estaríamos, hoje, discutindo superlotação em presídios!
    Não esqueçamos que quem está preso e nestas condições são os integrantes das camadas mais baixas (socialmente falando), por isso o assunto não rende, só quando um Juiz faz como fez o Dr. Paulo, pois daí mete medo nos “homens de bem”, mas, não esqueçamos “Homens de bem”, que presos nestas condições, vão inevitavelmente, um dia estar fora das grades (por merecimento ou fuga) e diante das condições que lhes foram dadas, eles não tem nada a perder, nada...
    Para variar, falei demais...

    ResponderExcluir
  2. César!
    Repassei os textos e links do teu post e comentário para a lista de discussão ArqFeevale. Seguidamente entra em pauta a questão arq-social dos presídios e muita gente não desenvolve bem a discussão e também não se interessa em "arquitetar" esse tipo de projeto como trabalho final de graduação por ter uma opinião completamente deformada a respeito do sistema carcerário e também sobre direitos humanos.
    Esses assuntos precisam ser discutidos entre nós, estudantes de arquitetura. Ainda mais nesse mês, quando estamos vivênciando uma oficina sobre Arquitetura x Relevância Social, confira no blog ArqFeevale: http://arqfeevale.wordpress.com/2009/05/14/oficina-de-tfg-%E2%80%93-arquitetura-x-relevancia-social/

    ResponderExcluir
  3. Lembram que o governo federal prometeu construir -- isso faz uns 2 ou 3 anos -- presídios federais em 90 dias, inclusive no RS? Onde estão esses presídios? Tem que ser muito imbecil para ser contra a construção de presídio. Não lembro, sinceramente, de ter ouvido, lido ou assistido algum formador de opinião criticando a construção de presídios... Sinceramente, não lembro. Alguém já viu o filme brasileiro do Marcos Jorge -- já em DVD -- "Estômago"? Não viu? Vá lá vivente e tire da prateleira que vale a pena. É muiiito bom.

    ResponderExcluir
  4. Paulo, Ana,

    ótimo seu depoimento. Eu nem imaginava muito do que você narrou.

    Ana, ótima iniciativa. É o tipo de coisa que parece pequena, mas faz a diferença.

    ResponderExcluir

Disclaimer

Nota bem que eu publico aqui opiniões de diversas pessoas, o que não quer dizer que eu concorde com tudo. A responsabilidade pelo que reproduzo aqui é dos autores citados. Essa responsabilidade se estende aos autores dos comentários feitos às postagens deste blog.